sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Padroeiro da Internet


Mauro Bahia
“Papa quer nomear Santo Isidoro de Sevilha padroeiro da Internet” (Folha de São Paulo)



PRIMEIRO ATO
Fala o Papa, dirigindo-se ao Cardeal Secretário para Assuntos de TI do Vaticano:
– Dom Minado, vá até o Céu e traga aqui Santo Isidoro de Sevilha.
– Isidoro, Isidoro... Aquele que jogou no Cruzeiro?
– Não, idiota. Sevilha que eu falo é a cidade, não o time de futebol. Santo Isidoro. Vá buscá-lo.
O cardeal (consultando um livro enorme):
– Meu computador travou e não tem ninguém com esse nome no catálogo.
– Sinal de que esse seu catálogo é uma m... Vá lá. Procurando, você acha.
SEGUNDO ATO
Dois dias depois, chega o Santo. Mal vestido, sem dentes, coberto de piolhos. A própria negação da modernidade. Pelo visto, tinha um empreguinho no Céu e só. O Papa abre a conversa:
– Isidoro, ninguém mais fala seu nome. Quantas vezes algum babaca lhe pediu um milagre, desde que aquela moça fumou charuto na Casa Branca?
– Não foi charuto, não, Santidade. Nem foi fumar...
– Eu sei, eu sei. Responda minha pergunta: quantas vezes?
– Umas duas.
– Ave Maria! É muito pouco. São Jorge nem existe e recebeu uma penca de pedidos. Mas isso vai mudar: vou lhe fazer padroeiro da Internet.
– Padroeiro do quê?
– Da Internet.
– Aquele negócio cheio de vírus?
– Tem uns, mas é a maior invenção do século.
– Quebrou a Bolsa, afundou o Nasdaq. Antes mesmo desta crise. A Miriam Leitão bem que avisou.
– E daí? Internet é o máximo. Eu já estou nela: www.papatudo.com.vt.
– Sua Santidade e o Bill Gates. E ele vai terminar na cadeia, por causa do monopólio.
– Duvido muito. Mas, e daí, aceita? Posso chamar a imprensa?
– Deus me livre.
– Já falei com Ele. Deu OK.
– Foi mesmo? Quando? Eu moro lá perto e há dois meses estou pedindo uma audiência. O Homem só manda dizer que não tem tempo. Pensa que é o Obama?
– Estou dizendo que falei com Ele. Achou a idéia ótima. Quer ver o e-mail?
– Não, obrigado. Tô fora.
– Isidoro, meu filho, há 1200 anos você está esquecido. Eu vou colocar seu nome no New York Times: “mais de dois milhões visitam home-page do padroeiro”. E no Le Monde, no Pravda, na Caras... Você vai faturar uma nota, fazendo comercial da Nike. Eu só quero 20 por cento disso. Vamos ficar ricos. Ricos! E então? Hein? Hein?
– Quero não, Santidade. Muito perigoso.
TERCEIRO ATO
O Papa se enfurece e manda Santo Isidoro embora. Chama de volta o Cardeal:
– Dom Minado, esse Isidoro é uma besta, mas eu tenho certeza que aquele brasileiro topa. Dê uma mexidinha no processo prá ele virar santo e...
– Quem, Santidade? O Edir Macedo tem seu próprio negócio; Jader Barbalho pensa que Internet é um tipo de açaí; PC Farias faz o Caixa 2 do Inferno – o chefão do pedaço não o entrega por dinheiro nenhum...
– Quer apostar?



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 13, fevereiro de 2009)

Uma Organização Não-Governamental


Mauro Bahia

Sem a Insetos Uótchi, as baratas já estariam extintas, em Cricri. Ainda mais agora que a crise chegou e o povo não tem o que comer.

No início, os habitantes de Cricri, pequena cidade do interior, pensavam que ONG era uma forma de AIDS. Hoje, alguns estão ainda mais convencidos disso, mas a maioria mudou de opinião. Já existem até as ongues locais, como a Insetos Uótchi, defensora das moscas, baratas, mosquitos, muriçocas e outros bichos, de variadas espécies.

Por sinal, essa organização enfrenta, no momento, graves dificuldades financeiras. Isso sempre acontece quando chega o dia de abrir o Caixa 2 e distribuir o dinheiro com os diretores.
Para resolver o problema, a diretoria está reunida na sua sede, doada pela Prefeitura. O uisquinho com salgados, gentileza da Câmara Municipal, já foi servido. É preciso decidir logo, pois todos estão ansiosos, à espera do almoço bancado pela empresa municipal de energia. (Felizmente, ainda não privatizada.)
Pirajá Pirou, Artrógeno Cururipe e Peçonha de Moraes são os que mais opinam.
Pirajá: O problema é que nosso dinheiro é curto e vem todo da Prefeitura. Precisamos de mais ajuda do governo. Qualquer que seja ele.
Artrógeno: Sei não, sei não. Depois vão ficar dizendo que nossa ongue vive só de verba pública.
Peçonha: E tem alguma que não viva?
Pirajá: Nenhuma. Vamos fazer uma moção ao prefeito, dizendo que precisamos de mais recursos.
Artrógeno: Mas, o prefeito sou eu.
Pirajá: Ótimo. Assim nosso pedido pode ser aprovado aqui mesmo.
Artrógeno: Não é assim. Preciso que os vereadores concordem.
Pede a palavra outro diretor, até então calado:
Aldo Cabeçote: No que depender do presidente da Câmara Municipal, a aprovação é certa. E da base de apoio ao prefeito, também.
(O presidente da Câmara Municipal era ele próprio.)
Do seu lugar, Rescaldo Sangrento, líder da Oposição, balançou a cabeça para dizer que o PNT, Partido dos Não-Trabalhadores, apoiava a ideia. Somente Peçonha de Moraes ainda quis prolongar a conversa.
Peçonha: Mas, como vamos defender o pedido?
Pirajá: Dizendo que, sem a Insetos Uótchi, as baratas já estariam extintas, na nossa cidade. Ainda mais agora que a crise chegou e o povo não tem o que comer.
Pirajá Pirou era considerado um intelectual; Aldo Cabeçote interveio, para reforçar o argumento do colega:
Cabeçote: Diga mais... Diga que os cupins são filhos de Deus. E as lesmas... A barata também é parte da Criação, mas ninguém pensa nisso. Ah, se não fosse a Insetos Uótchi, onde estaríamos?
Pirajá: Em um mundo onde o aumento da biodiversidade causado pelas variações climáticas já teria feito explodir o buraco de hormônio, levando ao aquecimento global de toda a Farinha Láctea.
Cabeçote: Essa frase tem de aparecer na petição.
Coube a Peçonha de Moraes redigir a carta pedindo mais dinheiro à Prefeitura. Cinco milhões de reais. Artrógeno Cururipe espantou-se com o valor.
Artrógeno: Assim não dá, Peçonha. Você quer mais dinheiro para financiar os serviços públicos da Insetos Uótchi. Mas, quem precisa de uma ongue para fazer serviços públicos e, ainda por cima, com dinheiro da Prefeitura? Não seria mais fácil a Prefeitura fazer tudo diretamente?
As ponderações do prefeito caíram em ouvidos moucos, pois os comensais não iriam perder seu tempo. Considerando a gravidade do assunto, os vereadores deliberaram em regime de urgência urgentíssima, durante o almoço, e aprovaram o pedido por unanimidade. Numa demonstração de elevado espírito público, Artrógeno Cururipe assinou os cheques ali mesmo, entre o prato de lagosta e a sobremesa de quindim. Antes, até, do cafezinho.
E, assim, em Cricri, a vida seguiu seu curso. Exatamente como sempre tinha feito, nos anos e décadas passados, quando ainda não havia ongues; exatamente como continuará a fazer, nos anos e décadas futuros, quando já não haverá ONGs.
(Embora ainda continue a haver AIDS.)



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 16, agosto de 2009)

Minto, logo existo


Mauro Bahia







Era só alguém pedir “Marcos, conta aquela”, que ele contava. Geralmente, após o jantar, sentado à mesa do hotel barato onde vivia com a mulher, outros casais jovens – como Stella e eu – e estudantes vindos de cidades vizinhas. Estórias fantásticas, narradas com total convicção. Talvez fossem mentiras, para os outros. Não para Marcos.
Havia o relato de uma viagem pelo interior, no meio da mata, com um carro velho trafegando em estradas cheias de lama e buracos – intransitáveis. Sem nenhuma cidade ou vilarejo, num raio de quilômetros. Aí, como convém aos contadores de casos, todos os problemas possíveis iriam acontecer. O motor falha e Marcos o conserta, usando apenas as mãos. Ferramentas, nem pensar. Um galho imenso, capaz de dividir o automóvel em dois, despenca da árvore, mas, milagrosamente, ninguém se fere, graças a um macaco que, antecipando o perigo iminente, grita alguma coisa que o motorista ouve como sendo “cuidado!” – o carro pára a um milímetro da tragédia. Logo depois disso, os quatro pneus esvaziam. Ele os enche... com a boca.
– Com o quê, Marcos?
– Com a boca, soprando.
– Ah, sim.
Hoje eu percebo que Marcos, nitidamente, misturava suas estórias com as do barão de Munchausen, célebre mentiroso alemão do século XIX. Como nos dois casos dos patos selvagens.
Certa feita, ele foi caçar. Não era seu dia; errou todos os disparos e desistiu. Já voltava para casa, com apenas um último cartucho restante, quando avistou um cajueiro coalhado de patos. E ele só podendo dar um único tiro. O que fazer? Teve uma idéia: curvou o cano da arma, foi até perto da árvore, e disparou. O chumbo ficou traçando círculos no ar, emitindo um zumbido. Assustadas, as aves alçavam vôo, de uma por uma. E, a cada volta da bala, dez ou doze eram abatidas. O único trabalho era ir apanhando os patos mortos que, em pencas, caíam no chão.
Em outra ocasião, também com um único tiro de reserva, Marcos viu uma dezena de patos voando em formação, um atrás do outro. De novo, a pergunta: o que fazer para não abater apenas um e perder tantos outros? Simples: amarrou uma linha na ponta da bala, mirou e disparou, matando todos. Recolheu-os, em seguida, sem sair do lugar, simplesmente, puxando a linha ainda com a bala na sua extremidade. Depois daquela outra, esta foi sua melhor caçada, em anos.
Marcos foi uma pessoa inesquecível. Houvesse sido filósofo, poderia ter escrito “minto, logo existo”. Estaria, então, mentindo ou dizendo a verdade? Se estivesse mentindo, sua afirmação “minto” seria falsa; portanto, ele não estaria mentindo. Se não estivesse mentindo, sua afirmação “minto” seria verdadeira; portanto, ele estaria mentindo. Mas brincar com paradoxos lógicos era a mania de Bertrand Russell, não a de Marcos Menezes.
Sem querer, escrevi seu segundo nome. Mas juro nunca revelar como se chamava a pensão modesta onde ele contavas essas estórias.


(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 2, n. 11, novembro de 2008)

Falta um Ministério


Mauro Bahia

“Qual é o número de telefone do Brasil?”



Há alguns anos, falou-se bastante na criação de um ministério que se manteria em permanente contato com o povo, recolhendo suas dúvidas e respondendo-as. Mas o projeto nunca se concretizou. O que foi uma pena, pois quem der uma espiada no endereço http://br.answers.yahoo.com/ (e nas citações abaixo) vai descobrir a falta que faz o Ministério das Perguntas Cretinas. (Os textos seguintes mantém a língua em que foram escritos, se é que se pode usar este termo.)
·       “Por que o programa de empacamento do governo não investe em coisa que realmente interessa ao Brasil?”
·       “CLT é o mesmo que sindicato?”
·       “Alguém sabe me responder, quantos cachorros é permitido por lei, ser criado dentro de uma residência?”
·       “Governo quer transferir recursos da cultura para o Piauí?”
·       “Sou bolsista Prouni e estou em uma faculdade de 2 anos, posso fazer mais 2 anos para concluir a bolsa Prouni?”
·       “Modelo de carta pedindo doacao?”
·       “Meu primo foi preso como laranja só que era de menor e agora ele deseja servir o exercito, ele pode? ou não?”
·       “Como identificar infiltrados e impedir seu acesso às instituições?”
·       “Na produção do território brasileiro, quais fatores determinam a configuração político-administrativa atual?”
·       “E se o governo perdoasse todas as dívidas dos brasileiros?”
·       “Nao sera que Hugo Chavez seja um terrorista camuflado?”
·       “Quem aqui acredita que o dep. Clodovil Hernandez pode ter sido assassinado, por queima de arquivo?”
·       “Posso vlolta assina a carteira de trabalho ceando aposentado de novo?”
·       “Qual é o número de telefone do Brasil?”
·       “Qual a raça zebuina mais precoce sexualmente a pasto?”
·       “Alguem sabe onde comprar gelo em Campinas?”
·       “Quem ja foi para algum pais começado com a letra B da Europa pode me falar um pouco sobre la, por favor?”
·       “Alguém sabe o n° de pessoa que utilizam celulares na região brasileira? E alguém sabe a espessura de um vírus?”
·       “Moro em Ituiutaba-MG e gostaria de ir embora para espanha trabalhar sera que la ganha uns quanto ?”
·       “Alguem conhece alguma reportagem sobre complexidade, substancia ou unidade?”
·       “O que foi o Período Antropocêntrico?”
·       “Lençol freático? onde possui aqui no brasil?”
·       “Alguém conhece a Baixa do Sapateiro no Rio de Janeiro? Qual o melhor meio de transporte para chegar lá...?”
·       “Quando foi que os golfinhos fugiram para o mar aberto e a Sea Aquatic International faliu?”
·       “Minha vó doou a casa que ela mora p/ 1 filho como devemos agir p/ que ele não despeje ela que tem 91 anos?”
Os destaques vão para:
·       O “Programa de Empacamento do Brasil”, que, evidentemente, está dando certo.
·       O bolsista do Prouni, que quer “concluir a bolsa”, não o curso.
·       O “modelo de carta pedindo doação”; afinal, como poderíamos viver sem um “modelo” desses?
·       O país começando com a letra B, na Europa. “B” de “dado.”
·       A “espessura de um vírus” (eletrônico, provavelmente).
·       E, finalmente, destaque para aquele filho exemplar que, após ser presenteado com a casa onde vive sua mãe, quer pô-la na rua. Mesmo sabendo que, com seus 91 anos, a velha não deve tardar muito a morrer, o que simplificaria bastante as coisas.
Contribuições adicionais devem ser enviadas para o “número de telefone do Brasil”.


(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 14, abril de 2009)

O trem para Branquinha


Mauro Bahia


Se eu vier a escrever um livro de memórias, ele será chamado O trem para Branquinha. Que trem? Que Branquinha?
Primeiro, o lugar. Por muito tempo, distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas; a partir de 1962, pequena cidade quase esquecida das usinas e fazendas que lhe ficavam próximas: Monte Verde, do avô Nominando; Campo Verde – a fazenda, do tio Jovino; a usina, de outros parentes –; Três Paus; Guanabara; Cocho d’Água; Anhumas, da tia Helena. De vez em quando, Branquinha aparece nos jornais, invariavelmente, pelas razões erradas: inundações do Mundaú, escândalos políticos, ou seu notório Índice de Desenvolvimento Humano, um dos piores do estado.
Não nasci em Branquinha, mas foi por pouco. Meu irmão Ivan, sim, no remoto ano de 1943. Algum tempo depois, nossos pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder a esperança em criar sua família plantando cana-de-açúcar e, uma coisa levando à outra, ao trocar o campo pela cidade, Mauro pai escrevia sua versão particular de uma história comum a tantos contemporâneos. Eram demasiados os herdeiros de terras e de usinas na região do açúcar – não apenas em Alagoas, no Nordeste – e a cana não sustentaria a todos. Muitos saíam, procurando as cidades maiores, onde havia a Faculdade de Direito, com os diplomas, e o governo, com os empregos. Os que ficavam, proprietários e usineiros, repetiam a saga de seus pais: relativamente ricos, alguns; absolutamente endividados, todos. Por sorte, deviam ao Banco do Brasil ou ao também estatal Instituto do Açúcar e do Álcool. Ou seja, mesmo quando insolventes, encontravam meios de ir levando a vida.
Tendo perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a fazê-lo no Recife, em 1947. Deste ano até, pelo menos, a primeira metade dos 1960, passei as férias em Monte Verde. Em regra, viajávamos de trem; às vezes, íamos de avião até Maceió, onde vivia a avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, passados alguns dias, embarcávamos no trem para a fazenda. No percurso, eu sonhava com cajus. Continuo sonhando, embora tenha experimentado coisas ainda mais gostosas, desde então. Essa era Branquinha.
E o trem?
Da Gretueste (ou Great Western, para os mais cultos), depois Rede Ferroviária do Nordeste. Até 1954, locomotivas marias-fumaças, movidas a lenha e a vapor; nesse ano, apareceram as máquinas diesel e o percurso do Recife a Branquinha, quando, excepcionalmente, não havia atrasos, encurtou-se de dez para oito horas. Um espanto. Nas viagens, minha mãe tinha frequentes enxaquecas, porém se resignava, pois não havia outro meio de chegar à fazenda. Íamos na única parte do trem equipada com poltronas numeradas, mas o vagão especial atrasava tanto quanto os outros.
Algumas estações tinham nomes marcantes: Pontezinha, Paquevira, Maraial, Fernão Velho, Bebedouro. Nelas, respeitadas as especializações, podíamos comprar laranjas, bananas, doces, alfenins, cavacos ou rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava diariamente jornais e sacos de sururu. E havia o telégrafo, maravilha tecnológica da época; pelo código Morse, o vilarejo falava para o mundo.
O melhor da viagem era quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná Champagne e comer alguma coisa. Também me lembro do banheiro – melhor dito, da latrina – que se comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta embaixo do assento e não devia ser usada quando os trens estivessem parados. (Eu ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Frequentemente, me pergunto por que, no Nordeste, o trem da Gretueste não se associou a uma revolução industrial, como acontecera na Europa do século 19. Nem o trem, nem as grandes fábricas de tecidos, das quais havia tantas, no Recife e em estações como Fernão Velho, um bairro de Maceió.
Tenho, certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de diferentes épocas e lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar especial em minhas memórias. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, das enxaquecas de minha mãe, dos cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou da impressão que me causava ir deixando o cocô ao longo do caminho, às vezes, espalhado em quilômetros.
Um verdadeiro recorde.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 20, agosto de 2010)

O pastor Joseph e a tomada de corrente


Mauro Bahia


Certo dia, fui abordado por dois daqueles rapazes que vivem batendo de porta em porta a fazer propaganda religiosa. Quase sempre, consigo escapar do sermão sem ser indelicado. Não dessa vez: quando me dei conta, eles já estavam narrando a história que, com algumas licenças poéticas, reproduzo abaixo.
Joseph, pessoa muito piedosa, vivia atormentado porque, nas redondezas da cidade onde morava – em algum lugar dos Estados Unidos, dois séculos atrás – havia quatro igrejas diferentes, cada uma garantindo ser a única verdadeira. Batistas, santistas, queremistas, revisionistas, sei lá.
– “Eu sou o carrinho, a vaidade e o custo de vida”, dizia o pastor da igreja no 1.
– “Eu é que sou o maioral”, pregava o da no 2.
Coisas do mesmo tipo também eram ditas pelos outros pastores. Instalara-se, enfim, uma bagunça ideológica na qual ninguém conseguia dar jeito.
– “Como posso saber qual é a igreja verdadeira?”, perguntava-se Joseph, angustiado. Uma escolha errada poderia levá-lo ao inferno.
Passaram-se meses até que, finalmente, o homem decidiu não decidir. Por sorte, perto de sua casa havia uma montanha. Ali ele iria jejuar por quanto tempo fosse necessário; a greve de fome só terminaria quando viesse um sinal do Além mostrando qual das quatro igrejas era mesmo a verdadeira.
Deve ser dito que o jejum durou somente até quando, na cidade aos seus pés, foi inaugurado o primeiro MacDonald’s. Na manhã seguinte, atormentado por visões apocalípticas de um Big Mac com Coca Cola, o homem desistiu. Mas eis que, justo então, dois anjos lhe apareceram, para dizer que nenhuma das igrejas lá embaixo estava com aquela bola toda. E que ele, promovido a pastor de cabras e ovelhas, deveria fundar uma nova religião. O que Joseph, naturalmente, fez, pois não é todo dia que aparece uma oportunidade dessas.
Ficava assim demonstrado, de acordo com os dois jovens, que a igreja deles era, sem nenhuma dúvida, a única verdadeira. Ao ouvir isso, argumentei que, antes de Joseph subir à montanha, havia quatro igrejas, cada uma delas se dizendo concessionária autorizada exclusiva dos poderes celestiais. Depois que ele desceu, passaram a existir cinco. Nessas condições, eu achava que o pastor tinha piorado a situação. Mas os dois rapazes não concordaram.
***
Lembrei-me dessa história há poucos dias quando, tendo comprado um aparelho elétrico, dei-me conta de que não o podia conectar a nenhuma das tomadas existentes em casa, nem mesmo com a ajuda dos muitos adaptadores trazidos do Exterior. Eu já sabia que o Brasil está introduzindo um novo sistema de plugs e tomadas. Resolvi me informar melhor com um especialista. Resultou o seguinte diálogo, eu perguntando, ele respondendo.
– O novo sistema é mais seguro?
– Parece que sim.
– Mais moderno?
– Com certeza.
– É igual ao usado nos Estados Unidos?
– Não.
– Na Inglaterra?
– Não.
– Na França?
– Menos ainda.
– Na Rússia, na China, no Uzbequistão?
– Não, não e não.
– Na PQP?
– Nunca.
Fiquei sabendo que o sistema brasileiro foi inventado no Brasil e só existe aqui. Seus criadores devem ser adeptos do pastor Joseph, que tentou resolver o problema do excesso de igrejas verdadeiras fundando mais uma. Com a diferença de que os gênios locais nem precisaram passar por um pesadelo gastronômico antes de parir sua religião – digo, suas tomadas.
– Imagine se tivessem passado.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 20, outubro de 2010)

Falso Brilhante


Mauro Bahia


Tudo oscilava, menos os títulos de renda fixa.



No final da Idade Média européia, a governança corporativa criou os derivativos de crédito, para aumentar a alavancagem das ações nominativas ao portador. A iniciativa teve êxito, mas houve muitas fraudes, de modo que os comerciantes foram obrigados a instalar na porta de cada loja uma balança, desde então, conhecida como balança comercial.
Infelizmente, as balanças estavam sempre em desequilíbrio, chegando a causar acidentes, como a queda das bolsas expostas nos estabelecimentos, o que levou as agências de rating a classificar as maiores cidades como capitais de risco. Portanto, depois de algum tempo, as balanças foram removidas para o caixa dois das empresas, razão pela qual passaram a ser chamadas balanças de pagamentos. A instabilidade, porém, não cessou.
Isso aconteceu muito antes da globalização, quando, na falta de um benchmarking que pudesse ancorá-lo no Dow Jones, o índice Nasdaq flutuava intensamente, a ponto de ameaçar os arranjos produtivos locais, ou clusters, como se diz em português. Sabemos hoje que, se a crise não tivesse sido combatida pelos bail-outs, ela teria provocado uma revolução industrial, com enormes custos de oportunidade.
Há, inclusive, base monetária para afirmar que, sem o hedge proporcionado pelo hot money, o paraíso fiscal teria sido inteiramente destruído, levando ao túmulo padres, pastores e a respectiva ovinocultura. Esta última, por sinal, também era ameaçada pelos tigres asiáticos, cuja fome zero havia sido agravada pela seca no Nordeste. Uma guerra entre potências rivais, cada uma com um produto interno mais bruto do que o da outra, derreteria overnight a poupança, tornando-a poupança líquida.
Mas, apesar de ter evitado o pior, a Europa sofreu um crash, com a transformação de valores em preços. Em dado momento, na bolsa de futuros, mais valia uma mísera joint venture do que toneladas de ativos tóxicos geradas pelo aquecimento global. Sem contar que a tendência declinante da taxa de lucros alterou as expectativas racionais dos empresários, levando-os a confundir moças solteiras com operações casadas.
Tudo oscilava, menos os títulos de renda fixa. As pessoas jurídicas procuravam avidamente uma offshore onde pudessem descarregar seu patrimônio líquido, pois os toaletes estavam ocupados, em razão do excesso de liquidez. Moedas podres se multiplicavam, causando forte mau cheiro, apesar de o papa Bento Zero ter ameaçado excomungar todos os Ph. D. que duvidassem da economia novo-clássica.
Graças à sazonalidade, entretanto, a crise passou, iniciando-se a Fase II do Kondratiev. A remoção das montanhas de empréstimos subprime foi feita com o uso das bestas de carga tributária, que se destacavam dos outros animais por nunca pararem de crescer. Um serviço de primeiro mundo, executado no sistema de leasing, com financiamento garantido pela securitização da dívida externa. O FMI ajudou, fazendo vultosos bridge loans, apesar de impor condicionalidades.
E assim, quando a estagflação esvaeceu, a Europa não era mais uma zona – nem uma zona franca, nem uma zona de processamento de exportações. O gap entre o velho continente e os países emergentes foi fechado, a ponto de ninguém mais poder atravessá-lo. Num feito notável de engenharia financeira, conseguiu-se recuperar os swaps, que passaram à condição FOB, com novos spreads, enquanto as políticas neoliberais atingiam o centro da meta inflacionária estabelecida pelo Copom, embora a indexação não tenha funcionado, pois se tratava de um jogo de soma zero.
Tudo isso demonstra que é possível alcançar índices de Gini compatíveis com a convexidade das vantagens comparativas, se o superávit primário for mantido em paridade com a taxa de câmbio, conforme determinam a lei de responsabilidade fiscal e o protocolo de Kyoto. A conclusão final é que, mais uma vez, Marx estava certo: somente as nações com índices de desenvolvimento humano sustentável superiores à linha de pobreza, complementada pelo Bolsa Família, terão lugar de destaque no ranking mundial em concentração de renda, corrigido pela composição orgânica do capital. 



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 2, n. 12, dezembro de 2008)