segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tragédia em dez (g)atos


Mauro Bahia


A menina adorava gatos – queria ter dez, em casa. O menino detestava – gato, não, buá, buáA mãe arbitrou:

– Mariazinha, ofereça ao Joãozinho um real por cada gato que você trouxer pra casa. Quem sabe ele aceita?

Foi o que a menina fez. Pelos gatos, qualquer sacrifício era válido. Joãozinho topou. Na hora.

Primeiro gato. No dia seguinte, Mariazinha, comprou um gato. Da sua mesada, tirou um real e deu para o irmão, que foi até à mercearia e perguntou quanto custava uma garrafa de querosene. Três reais.

Segundo gato. Quatro dias depois, Maria ganhou um gato. Um real para Joãozinho. Contente, o menino quis saber do seu Manoel quanto teria de pagar por uma caixa de fósforo. Um real.

Terceiro gato. Mais uma semana e Mariazinha ganhou outro gato. Da sua mesada, a menina tirou um real e deu para o irmão, àquela altura muito compreensivo com os felinos. Joãozinho foi até a mercearia e comprou o querosene.

Quarto gato. Uma tia presenteou Mariazinha com um gato. A menina deu mais um real a Joãozinho, que foi ao supermercado comprar uma caixa de fósforos e perguntar quanto custava uma cesta de roupas sujas. Cinco reais.

Quinto gato. A outra tia, para não ficar atrás (ainda mais agora que o sobrinho também estava gostando de gatos) trouxe um gato de presente para Maria, que de sua mesada tirou um real e deu para Joãozinho. O menino guardou a moeda.

Sexto, sétimo, oitavo, nono gatos; sexto, sétimo, oitavo, nono reais para Joãozinho, que comprou a cesta de roupas sujas.

Décimo gato. Maria comprou outro gato e deu mais um real para o irmão. À noite, quando a irmã dormia e os gatos perambulavam insones pela casa, o menino pegou os dez bichinhos, colocou-os na cesta de roupas sujas, despejou o querosene, riscou um fósforo e ateou fogo. Foi um gaticídio como há muito não se via. Joãozinho fez as contas e achou que tinha feito um bom negócio. Estava (pelo menos por enquanto) livre dos gatos e ainda tinha lucrado um real e uma caixa de fósforos quase cheia. Propôs à irmã que continuassem com o trato.
  
(Gravatá, 14-05-2001)

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