sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Falso Brilhante


Mauro Bahia


Tudo oscilava, menos os títulos de renda fixa.



No final da Idade Média européia, a governança corporativa criou os derivativos de crédito, para aumentar a alavancagem das ações nominativas ao portador. A iniciativa teve êxito, mas houve muitas fraudes, de modo que os comerciantes foram obrigados a instalar na porta de cada loja uma balança, desde então, conhecida como balança comercial.
Infelizmente, as balanças estavam sempre em desequilíbrio, chegando a causar acidentes, como a queda das bolsas expostas nos estabelecimentos, o que levou as agências de rating a classificar as maiores cidades como capitais de risco. Portanto, depois de algum tempo, as balanças foram removidas para o caixa dois das empresas, razão pela qual passaram a ser chamadas balanças de pagamentos. A instabilidade, porém, não cessou.
Isso aconteceu muito antes da globalização, quando, na falta de um benchmarking que pudesse ancorá-lo no Dow Jones, o índice Nasdaq flutuava intensamente, a ponto de ameaçar os arranjos produtivos locais, ou clusters, como se diz em português. Sabemos hoje que, se a crise não tivesse sido combatida pelos bail-outs, ela teria provocado uma revolução industrial, com enormes custos de oportunidade.
Há, inclusive, base monetária para afirmar que, sem o hedge proporcionado pelo hot money, o paraíso fiscal teria sido inteiramente destruído, levando ao túmulo padres, pastores e a respectiva ovinocultura. Esta última, por sinal, também era ameaçada pelos tigres asiáticos, cuja fome zero havia sido agravada pela seca no Nordeste. Uma guerra entre potências rivais, cada uma com um produto interno mais bruto do que o da outra, derreteria overnight a poupança, tornando-a poupança líquida.
Mas, apesar de ter evitado o pior, a Europa sofreu um crash, com a transformação de valores em preços. Em dado momento, na bolsa de futuros, mais valia uma mísera joint venture do que toneladas de ativos tóxicos geradas pelo aquecimento global. Sem contar que a tendência declinante da taxa de lucros alterou as expectativas racionais dos empresários, levando-os a confundir moças solteiras com operações casadas.
Tudo oscilava, menos os títulos de renda fixa. As pessoas jurídicas procuravam avidamente uma offshore onde pudessem descarregar seu patrimônio líquido, pois os toaletes estavam ocupados, em razão do excesso de liquidez. Moedas podres se multiplicavam, causando forte mau cheiro, apesar de o papa Bento Zero ter ameaçado excomungar todos os Ph. D. que duvidassem da economia novo-clássica.
Graças à sazonalidade, entretanto, a crise passou, iniciando-se a Fase II do Kondratiev. A remoção das montanhas de empréstimos subprime foi feita com o uso das bestas de carga tributária, que se destacavam dos outros animais por nunca pararem de crescer. Um serviço de primeiro mundo, executado no sistema de leasing, com financiamento garantido pela securitização da dívida externa. O FMI ajudou, fazendo vultosos bridge loans, apesar de impor condicionalidades.
E assim, quando a estagflação esvaeceu, a Europa não era mais uma zona – nem uma zona franca, nem uma zona de processamento de exportações. O gap entre o velho continente e os países emergentes foi fechado, a ponto de ninguém mais poder atravessá-lo. Num feito notável de engenharia financeira, conseguiu-se recuperar os swaps, que passaram à condição FOB, com novos spreads, enquanto as políticas neoliberais atingiam o centro da meta inflacionária estabelecida pelo Copom, embora a indexação não tenha funcionado, pois se tratava de um jogo de soma zero.
Tudo isso demonstra que é possível alcançar índices de Gini compatíveis com a convexidade das vantagens comparativas, se o superávit primário for mantido em paridade com a taxa de câmbio, conforme determinam a lei de responsabilidade fiscal e o protocolo de Kyoto. A conclusão final é que, mais uma vez, Marx estava certo: somente as nações com índices de desenvolvimento humano sustentável superiores à linha de pobreza, complementada pelo Bolsa Família, terão lugar de destaque no ranking mundial em concentração de renda, corrigido pela composição orgânica do capital. 



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 2, n. 12, dezembro de 2008)

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