Mauro Bahia
Tudo oscilava, menos os títulos de renda
fixa.
No final da Idade
Média européia, a governança corporativa criou os derivativos de crédito, para aumentar
a alavancagem das ações nominativas ao portador. A iniciativa teve êxito, mas
houve muitas fraudes, de modo que os comerciantes foram obrigados a instalar na
porta de cada loja uma balança, desde então, conhecida como balança comercial.
Infelizmente, as balanças
estavam sempre em desequilíbrio, chegando a causar acidentes, como a queda das
bolsas expostas nos estabelecimentos, o que levou as agências de rating a
classificar as maiores cidades como capitais de risco. Portanto, depois de
algum tempo, as balanças foram removidas para o caixa dois das empresas, razão pela
qual passaram a ser chamadas balanças de pagamentos. A instabilidade, porém,
não cessou.
Isso aconteceu muito antes
da globalização, quando, na falta de um benchmarking que pudesse ancorá-lo no
Dow Jones, o índice Nasdaq flutuava intensamente, a ponto de ameaçar os
arranjos produtivos locais, ou clusters, como se diz em português. Sabemos
hoje que, se a crise não tivesse sido combatida pelos bail-outs, ela teria
provocado uma revolução industrial, com enormes custos de oportunidade.
Há, inclusive, base
monetária para afirmar que, sem o hedge proporcionado pelo hot money, o paraíso
fiscal teria sido inteiramente destruído, levando ao túmulo padres, pastores e
a respectiva ovinocultura. Esta última, por sinal, também era ameaçada pelos
tigres asiáticos, cuja fome zero havia sido agravada pela seca no Nordeste. Uma
guerra entre potências rivais, cada uma com um produto interno mais bruto do
que o da outra, derreteria overnight a poupança, tornando-a poupança líquida.
Mas, apesar de ter
evitado o pior, a Europa sofreu um crash, com a transformação de valores em preços. Em dado
momento, na bolsa de futuros, mais valia uma mísera joint venture do que
toneladas de ativos tóxicos geradas pelo aquecimento global. Sem contar que a
tendência declinante da taxa de lucros alterou as expectativas racionais dos
empresários, levando-os a confundir moças solteiras com operações casadas.
Tudo oscilava, menos
os títulos de renda fixa. As pessoas jurídicas procuravam avidamente uma
offshore onde pudessem descarregar seu patrimônio líquido, pois os toaletes
estavam ocupados, em razão do excesso de liquidez. Moedas podres se multiplicavam,
causando forte mau cheiro, apesar de o papa Bento Zero ter ameaçado excomungar
todos os Ph. D. que duvidassem da economia novo-clássica.
Graças à
sazonalidade, entretanto, a crise passou, iniciando-se a Fase II do Kondratiev.
A remoção das montanhas de empréstimos subprime foi feita com o uso das bestas de
carga tributária, que se destacavam dos outros animais por nunca pararem de
crescer. Um serviço de primeiro mundo, executado no sistema de leasing, com financiamento
garantido pela securitização da dívida externa. O FMI ajudou, fazendo vultosos
bridge loans, apesar de impor condicionalidades.
E assim, quando a
estagflação esvaeceu, a Europa não era mais uma zona – nem uma zona franca, nem
uma zona de processamento de exportações. O gap entre o velho continente e os
países emergentes foi fechado, a ponto de ninguém mais poder atravessá-lo. Num
feito notável de engenharia financeira, conseguiu-se recuperar os swaps, que
passaram à condição FOB, com novos spreads, enquanto as políticas neoliberais
atingiam o centro da meta inflacionária estabelecida pelo Copom, embora a indexação
não tenha funcionado, pois se tratava de um jogo de soma zero.
Tudo isso demonstra
que é possível alcançar índices de Gini compatíveis com a convexidade das vantagens
comparativas, se o superávit primário for mantido em paridade com a taxa de
câmbio, conforme determinam a lei de responsabilidade fiscal e o protocolo de
Kyoto. A conclusão final é que, mais uma vez, Marx estava certo: somente as
nações com índices de desenvolvimento humano sustentável superiores à linha de
pobreza, complementada pelo Bolsa Família, terão lugar de destaque no ranking mundial
em concentração de renda, corrigido pela composição orgânica do capital.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 2,
n. 12, dezembro de 2008)
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