Mauro Bahia
Era só alguém pedir “Marcos, conta aquela”, que ele contava.
Geralmente, após o jantar, sentado à mesa do hotel barato onde vivia com a
mulher, outros casais jovens – como Stella e eu – e estudantes vindos de
cidades vizinhas. Estórias fantásticas, narradas com total convicção. Talvez
fossem mentiras, para os outros. Não para Marcos.
Havia o relato de uma viagem pelo interior, no meio da mata, com um
carro velho trafegando em estradas cheias de lama e buracos – intransitáveis.
Sem nenhuma cidade ou vilarejo, num raio de quilômetros. Aí, como convém aos
contadores de casos, todos os problemas possíveis iriam acontecer. O motor
falha e Marcos o conserta, usando apenas as mãos. Ferramentas, nem pensar. Um
galho imenso, capaz de dividir o automóvel em dois, despenca da árvore, mas,
milagrosamente, ninguém se fere, graças a um macaco que, antecipando o perigo
iminente, grita alguma coisa que o motorista ouve como sendo “cuidado!” – o carro
pára a um milímetro da tragédia. Logo depois disso, os quatro pneus esvaziam. Ele
os enche... com a boca.
– Com o quê, Marcos?
– Com a boca, soprando.
– Ah, sim.
Hoje eu percebo que Marcos, nitidamente, misturava suas estórias com
as do barão de Munchausen, célebre mentiroso alemão do século XIX. Como nos dois
casos dos patos selvagens.
Certa feita, ele foi caçar. Não era seu dia; errou todos os disparos e
desistiu. Já voltava para casa, com apenas um último cartucho restante, quando
avistou um cajueiro coalhado de patos. E ele só podendo dar um único tiro. O que
fazer? Teve uma idéia: curvou o cano da arma, foi até perto da árvore, e
disparou. O chumbo ficou traçando círculos no ar, emitindo um zumbido.
Assustadas, as aves alçavam vôo, de uma por uma. E, a cada volta da bala, dez
ou doze eram abatidas. O único trabalho era ir apanhando os patos mortos que,
em pencas, caíam no chão.
Em outra ocasião, também com um único tiro de reserva, Marcos viu uma
dezena de patos voando em formação, um atrás do outro. De novo, a pergunta: o
que fazer para não abater apenas um e perder tantos outros? Simples: amarrou
uma linha na ponta da bala, mirou e disparou, matando todos. Recolheu-os, em
seguida, sem sair do lugar, simplesmente, puxando a linha ainda com a bala na sua
extremidade. Depois daquela outra, esta foi sua melhor caçada, em anos.
Marcos foi uma pessoa inesquecível. Houvesse sido filósofo, poderia
ter escrito “minto, logo existo”. Estaria, então, mentindo ou dizendo a
verdade? Se estivesse mentindo, sua afirmação “minto” seria falsa; portanto,
ele não estaria mentindo. Se não estivesse mentindo, sua afirmação “minto”
seria verdadeira; portanto, ele estaria mentindo. Mas brincar com paradoxos
lógicos era a mania de Bertrand Russell, não a de Marcos Menezes.
Sem querer, escrevi seu segundo nome. Mas juro nunca revelar como se
chamava a pensão modesta onde ele contavas essas estórias.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 2,
n. 11, novembro de 2008)
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