Mauro Bahia
Implante faz frango
agir como codorna. (Folha de São Paulo, 19/04/01, p. A17).
Os dois
ficaram se conhecendo por meio de um amigo comum.
– Muito
prazer, Pedro Nepomuceno, artista.
– Muito
prazer, Genival dos Anjos, frango.
–
Frango? Mas você parece codorna. Eu jurava que era uma codorna. Já estava até
procurando os ovos.
–
Frango, sim. Não leu nos jornais? “Implante faz frango agir como codorna”. Tá
falando com o próprio.
– Ah,
me lembro. Quem operou foi um americano, não foi?
– O
doutor Smith.
– Você
tem o telefone dele?
– Por
que?
– Quem
sabe ele faz outros implantes? Eu penso cada coisa...
– Ele
tentou fazer o Rex agir como rouxinol. O cãozinho pulou do décimo andar e se
esborrachou. Mas morreu cantando...
– Esse
cara só tem idéia idiota? Quem quer saber de cachorro virar passarinho? Veja o
seu caso: faz diferença ser galinha ou codorna?
–
Galinha não, frango.
– É a
mesma coisa. Eu queria ver um porco agir como deputado; o bispo Maucedo recusar
dinheiro; Roncaldinho fazer um gol. Isso sim, seria sensacional. Já imaginou o
dia em que o Simíte convencesse um italiano a cortar macarrão? Ou um bailarino
a gostar de mulher? O cara ia virar celebridade.
–
Deputado agir como porco, ele já conseguiu. Mas o contrário, sei não.
– Me dá
o telefone.
–
44-55-66
Pedro
Nepomuceno ligou; a voz do outro lado respondeu.
–
Consultório médico.
–
Queria falar com o doutor Simíte.
– O
doutor Smith não atende mais telefone. Depois do implante, ele está agindo como
um jumento. Foi para o Nordeste, carregar água no lombo. Lá tem seca, o senhor
sabe. Quer deixar recado?
Antes
de dizer alguma coisa, ocorreu-lhe o pensamento de que o Dr. Smith não era,
afinal, o completo idiota que havia parecido. Na verdade, Pedro ficou mudo. Mas
só por um segundo:
- Diga
prá ele que virar jumento e ir trabalhar na Paraíba até que foi uma
boa idéia.
(Brasília,
20-04-2001)