segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Caterpillar e seus amigos


Mauro Bahia

Desde o berço a mamãe punha a maior fé naquele menino. Hoje, adulto, João Caterpillar de Souza é engenheiro. Constrói represas em sopas. Em qualquer tipo de sopa, o que é, ainda, mais notável. (Claro que as melhores são as sopas de verduras picadinhas, mas Caterpillar não escolhe: deu sopa, ele faz uma represa).

Pena que o engenheiro exerça seus talentos num hospício, onde a única pessoa que lhe observa as obras é Ubaldo Gumercindo da Silva, emérito falsificador de moedas de três centavos. Esse, por sinal, é outro injustiçado: só porque o Banco Central nunca conseguiu fazer moedas de três centavos tão boas como as dele, sua produção encalhou e ele acabou sendo preso.

No hospício, entretanto, o dinheiro circula livremente, inclusive porque Ubaldo tornou-se ministro da Fazenda. A inflação chegou ali prá valer, um dia depois de sua posse, mas ele reagiu cortando cada caixa de remédios pela metade, para reduzir as despesas em cinquenta por cento, dentro das metas acertadas com o FMI. Deu tão certo lá dentro como em qualquer outro lugar. E foi tudo feito de forma legal.

De fato, Otaviano Bragança, jurista e ocupante do quarto ao lado, já emitiu vários pareceres garantindo a constitucionalidade do processo. Em moedas de três centavos, Bragança recebe um bom dinheiro por cada parecer, mas desperdiça tudo apostando em cavalos de pau. Se não fosse por esse vício, já teria comprado um bilhete do poupa-ganha e hoje seria um homem rico.

Seria, mas não é. Ao contrário, só não passa fome no hospital psiquiátrico porque um amigo, Geraldo Nepomuceno, companheiro de quarto, o sustenta, com o dinheiro que ganha escrevendo discursos para Napoleão Bonaparte.

São peças da mais fina oratória militar, que Napoleão utiliza sempre que consegue fugir do manicômio. Da última vez que o fez, invadiu a Rússia com três discursos, mas um deles continha erros de português e o ataque foi repelido pela múmia de Ramsés II. Nepomuceno atribuiu os erros ao corretor gramatical de seu processador de textos, cujo prazo de validade estava vencido. Napoleão aceitou a explicação e vai manter a aliança militar, até a conquista de Kosovo. Seu único problema é com a própria identidade, que precisa continuar secreta.

Isso porque, ninguém sabe disso, mas na ficha de Napoleão não consta esse nome e sim o de Francisco Bernardino dos Santos. Ninguém sabe, vírgula. Rescaldo Sangrento, economista com uma vasta obra não publicada, nem escrita, sabe. Felizmente, Rescaldo, cujo tipo de desequilíbrio mental o Dr. Freud ainda não conseguiu especificar, é uma pessoa muito educada, que só vai contar o segredo para deus e o mundo.

Para Deus, será mais fácil: dizem que ele é o diretor do hospício. Mas não há certeza disso, pois este senhor nunca aparece. Meio mundo acha que ele nem existe. Não é o que pensa João Caterpillar, construtor de  represas em sopas.

Em se tratando da opinião de um engenheiro, deve ser correta.

(Gravatá, janeiro 2000)

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