Mauro Bahia
Desde o
berço a mamãe punha a maior fé naquele menino. Hoje, adulto, João Caterpillar
de Souza é engenheiro. Constrói represas em sopas. Em qualquer tipo
de sopa, o que é, ainda, mais notável. (Claro que as melhores são as sopas de
verduras picadinhas, mas Caterpillar não escolhe: deu sopa, ele faz uma
represa).
Pena
que o engenheiro exerça seus talentos num hospício, onde a única pessoa que lhe
observa as obras é Ubaldo Gumercindo da Silva, emérito falsificador de moedas
de três centavos. Esse, por sinal, é outro injustiçado: só porque o Banco
Central nunca conseguiu fazer moedas de três centavos tão boas como as dele,
sua produção encalhou e ele acabou sendo preso.
No
hospício, entretanto, o dinheiro circula livremente, inclusive porque Ubaldo
tornou-se ministro da Fazenda. A inflação chegou ali prá valer, um dia depois
de sua posse, mas ele reagiu cortando cada caixa de remédios pela metade, para
reduzir as despesas em cinquenta por cento, dentro das metas acertadas com o
FMI. Deu tão certo lá dentro como em qualquer outro lugar. E foi tudo feito de
forma legal.
De
fato, Otaviano Bragança, jurista e ocupante do quarto ao lado, já emitiu vários
pareceres garantindo a constitucionalidade do processo. Em moedas de três
centavos, Bragança recebe um bom dinheiro por cada parecer, mas desperdiça tudo
apostando em cavalos de pau. Se não fosse por esse vício, já teria comprado um
bilhete do poupa-ganha e hoje seria um homem rico.
Seria,
mas não é. Ao contrário, só não passa fome no hospital psiquiátrico porque um
amigo, Geraldo Nepomuceno, companheiro de quarto, o sustenta, com o dinheiro
que ganha escrevendo discursos para Napoleão Bonaparte.
São
peças da mais fina oratória militar, que Napoleão utiliza sempre que consegue
fugir do manicômio. Da última vez que o fez, invadiu a Rússia com três
discursos, mas um deles continha erros de português e o ataque foi repelido
pela múmia de Ramsés II. Nepomuceno atribuiu os erros ao corretor gramatical de
seu processador de textos, cujo prazo de validade estava vencido. Napoleão
aceitou a explicação e vai manter a aliança militar, até a conquista de Kosovo.
Seu único problema é com a própria identidade, que precisa continuar secreta.
Isso
porque, ninguém sabe disso, mas na ficha de Napoleão não consta esse nome e sim
o de Francisco Bernardino dos Santos. Ninguém sabe, vírgula. Rescaldo
Sangrento, economista com uma vasta obra não publicada, nem escrita, sabe.
Felizmente, Rescaldo, cujo tipo de desequilíbrio mental o Dr. Freud ainda não
conseguiu especificar, é uma pessoa muito educada, que só vai contar o segredo
para deus e o mundo.
Para
Deus, será mais fácil: dizem que ele é o diretor do hospício. Mas não há
certeza disso, pois este senhor nunca aparece. Meio mundo acha que ele nem
existe. Não é o que pensa João Caterpillar, construtor de represas em sopas.
Em se
tratando da opinião de um engenheiro, deve ser correta.
(Gravatá,
janeiro 2000)
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