Mauro Bahia
Ofegante, ela joga longe
o vestido,
a calcinha, o sutiã,
e ouve uma voz dizendo:
“meu amor”
(voz de homem).
A mulher suspira,
pelo que está a
ponto de fazer
– e porque tem
asma.
No instante
seguinte, Dona Maria, sozinha em casa,
recolhe os panos
que espalhou pelo chão,
põe tudo na máquina
de lavar e dá partida.
Sem sabão, nem água,
relaxada que é,
enquanto escuta do
rádio o décimo segundo “meu amor”
(voz de homem).
O artista reage, argumenta
e desiste, derrotado.
De nada lhe serve
dizer que lavagem de roupa
e programa brega destroem
o poema:
lavadeiras não
entendem de poesia.
(Mas, por um
salário mínimo, ele ia querer o quê.)
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 3,
n. 17, outubro de 2009)
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