quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Desalinho


Mauro Bahia




Ofegante, ela joga longe o vestido,
a calcinha, o sutiã, e ouve uma voz dizendo:
“meu amor”
(voz de homem).
A mulher suspira,
pelo que está a ponto de fazer
– e porque tem asma.

No instante seguinte, Dona Maria, sozinha em casa,
recolhe os panos que espalhou pelo chão,
põe tudo na máquina de lavar e dá partida.
Sem sabão, nem água, relaxada que é,
enquanto escuta do rádio o décimo segundo “meu amor”
(voz de homem).

O artista reage, argumenta e desiste, derrotado.
De nada lhe serve dizer que lavagem de roupa
e programa brega destroem o poema:
lavadeiras não entendem de poesia.

(Mas, por um salário mínimo, ele ia querer o quê.)





(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 17, outubro de 2009)

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