Mauro Bahia
No seu
leito de hospital, pouco antes de morrer, Antimósio C. Borréia soube que um
corretor de imóveis queria vê-lo. Achou estranho, mas mandou entrar.
– O
senhor sabe que não irá durar muito, começou falando o visitante, e eu estou
preocupado com seu bem-estar eterno. Sou enviado da Igreja Grupal. Estamos
fazendo uma promoção. Temos vagas tanto no Céu quanto no Inferno.
C.
Borréia quase morre antes do tempo. Nunca tinha ouvido falar naquilo. Apenas
conseguiu balbuciar:
– Como?
O quê? O senhor é louco?
Louco,
Fernando dos Anjos não parecia ser. Mostrou uma carta, com firma reconhecida e
tudo: ele era mesmo um corretor de imóveis inferno-celestiais.
– Não,
não sou louco. Antes, você só poderia escolher seu céu ou inferno depois de
morrer. Era um horror. Agora combinamos com os candidatos antecipadamente.
Oferecemos transporte e trinta dias de experiência, grátis. Quem não gostar
pode ir para onde quiser. Inclusive para esse lugar aonde o senhor está
pensando em me mandar, agora.
–
Trinta dias grátis?, estranhou Antimósio. Quer dizer que, depois disso, tenho
de pagar?
– Sim,
claro, todos os céus cobram. Aliás, os infernos também. Só um pouco menos,
porque lá não tem ar condicionado.
– Mas,
como vou pagar, depois de morto?
– Não é
depois de morto, é antes. Ih, já vi que o senhor não entende nada de religião.
(...)
A
conversa prosseguiu, por mais meia hora, até que Antimósio foi convencido a
comprar seu lugar no Céu. Entregou o caminhão com a rodagem nova, em pagamento. E a casa
popular, quitada. Era tudo o que tinha. Prometeu que, do dinheiro que os filhos
ganhassem, depois de sua morte, vinte e cinco por cento seria da igreja.
O
corretor disse que ia falar com o bispo, pois as vagas no céu estavam acabando
e o preço era mais de duas vezes aquele que Antimósio queria pagar. Em todo
caso, levou o caminhão, por conta. E a escritura da casa. E a promessa dos
filhos de deixarem o dinheiro na igreja, cada dia oito do mês. Ainda pediu um
trocadinho, por fora, para o leite das crianças. Ganhou. Disse que o bispo
estava numa pior e que os corretores faziam uma cota para comprar-lhe um
helicóptero. Quem sabe a mulher de Antimósio não tinha guardado algum dinheiro,
para essas emergências? Tinha. Que bom.
Chegou
o almoço de Antimósio, em seu leito de morte. O corretor comeu-o, em nome do
Pai, do Filho, do Espírito Santo e de uma garrafa de cachaça que o esperava na
bodega mais próxima, depois de uma visita tão abençoada. Antimósio ficou com
fome, mas tranquilo. Não precisava mais dessas coisas terrenas, como um bife à
milanesa, uma porção de purê e duas colheres de arroz. Tinha comprado sua vaga
no Céu. Amém.
(Gravatá,
janeiro de 2000)
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