segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Frango ou codorna?


Mauro Bahia
Implante faz frango agir como codorna. (Folha de São Paulo, 19/04/01, p. A17).

Os dois ficaram se conhecendo por meio de um amigo comum.

– Muito prazer, Pedro Nepomuceno, artista.

– Muito prazer, Genival dos Anjos, frango.

– Frango? Mas você parece codorna. Eu jurava que era uma codorna. Já estava até procurando os ovos.

– Frango, sim. Não leu nos jornais? “Implante faz frango agir como codorna”. Tá falando com o próprio.

– Ah, me lembro. Quem operou foi um americano, não foi?

– O doutor Smith.

– Você tem o telefone dele?

– Por que?

– Quem sabe ele faz outros implantes? Eu penso cada coisa...

– Ele tentou fazer o Rex agir como rouxinol. O cãozinho pulou do décimo andar e se esborrachou. Mas morreu cantando...

– Esse cara só tem idéia idiota? Quem quer saber de cachorro virar passarinho? Veja o seu caso: faz diferença ser galinha ou codorna?

– Galinha não, frango.

– É a mesma coisa. Eu queria ver um porco agir como deputado; o bispo Maucedo recusar dinheiro; Roncaldinho fazer um gol. Isso sim, seria sensacional. Já imaginou o dia em que o Simíte convencesse um italiano a cortar macarrão? Ou um bailarino a gostar de mulher? O cara ia virar celebridade.

– Deputado agir como porco, ele já conseguiu. Mas o contrário, sei não.

– Me dá o telefone.

– 44-55-66

Pedro Nepomuceno ligou; a voz do outro lado respondeu.

– Consultório médico.

– Queria falar com o doutor Simíte.

– O doutor Smith não atende mais telefone. Depois do implante, ele está agindo como um jumento. Foi para o Nordeste, carregar água no lombo. Lá tem seca, o senhor sabe. Quer deixar recado?

Antes de dizer alguma coisa, ocorreu-lhe o pensamento de que o Dr. Smith não era, afinal, o completo idiota que havia parecido. Na verdade, Pedro ficou mudo. Mas só por um segundo:

- Diga prá ele que virar jumento e ir trabalhar na Paraíba até que foi uma boa idéia.

  
(Brasília, 20-04-2001)

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