segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Frango ou codorna?


Mauro Bahia
Implante faz frango agir como codorna. (Folha de São Paulo, 19/04/01, p. A17).

Os dois ficaram se conhecendo por meio de um amigo comum.

– Muito prazer, Pedro Nepomuceno, artista.

– Muito prazer, Genival dos Anjos, frango.

– Frango? Mas você parece codorna. Eu jurava que era uma codorna. Já estava até procurando os ovos.

– Frango, sim. Não leu nos jornais? “Implante faz frango agir como codorna”. Tá falando com o próprio.

– Ah, me lembro. Quem operou foi um americano, não foi?

– O doutor Smith.

– Você tem o telefone dele?

– Por que?

– Quem sabe ele faz outros implantes? Eu penso cada coisa...

– Ele tentou fazer o Rex agir como rouxinol. O cãozinho pulou do décimo andar e se esborrachou. Mas morreu cantando...

– Esse cara só tem idéia idiota? Quem quer saber de cachorro virar passarinho? Veja o seu caso: faz diferença ser galinha ou codorna?

– Galinha não, frango.

– É a mesma coisa. Eu queria ver um porco agir como deputado; o bispo Maucedo recusar dinheiro; Roncaldinho fazer um gol. Isso sim, seria sensacional. Já imaginou o dia em que o Simíte convencesse um italiano a cortar macarrão? Ou um bailarino a gostar de mulher? O cara ia virar celebridade.

– Deputado agir como porco, ele já conseguiu. Mas o contrário, sei não.

– Me dá o telefone.

– 44-55-66

Pedro Nepomuceno ligou; a voz do outro lado respondeu.

– Consultório médico.

– Queria falar com o doutor Simíte.

– O doutor Smith não atende mais telefone. Depois do implante, ele está agindo como um jumento. Foi para o Nordeste, carregar água no lombo. Lá tem seca, o senhor sabe. Quer deixar recado?

Antes de dizer alguma coisa, ocorreu-lhe o pensamento de que o Dr. Smith não era, afinal, o completo idiota que havia parecido. Na verdade, Pedro ficou mudo. Mas só por um segundo:

- Diga prá ele que virar jumento e ir trabalhar na Paraíba até que foi uma boa idéia.

  
(Brasília, 20-04-2001)

Tragédia em dez (g)atos


Mauro Bahia


A menina adorava gatos – queria ter dez, em casa. O menino detestava – gato, não, buá, buáA mãe arbitrou:

– Mariazinha, ofereça ao Joãozinho um real por cada gato que você trouxer pra casa. Quem sabe ele aceita?

Foi o que a menina fez. Pelos gatos, qualquer sacrifício era válido. Joãozinho topou. Na hora.

Primeiro gato. No dia seguinte, Mariazinha, comprou um gato. Da sua mesada, tirou um real e deu para o irmão, que foi até à mercearia e perguntou quanto custava uma garrafa de querosene. Três reais.

Segundo gato. Quatro dias depois, Maria ganhou um gato. Um real para Joãozinho. Contente, o menino quis saber do seu Manoel quanto teria de pagar por uma caixa de fósforo. Um real.

Terceiro gato. Mais uma semana e Mariazinha ganhou outro gato. Da sua mesada, a menina tirou um real e deu para o irmão, àquela altura muito compreensivo com os felinos. Joãozinho foi até a mercearia e comprou o querosene.

Quarto gato. Uma tia presenteou Mariazinha com um gato. A menina deu mais um real a Joãozinho, que foi ao supermercado comprar uma caixa de fósforos e perguntar quanto custava uma cesta de roupas sujas. Cinco reais.

Quinto gato. A outra tia, para não ficar atrás (ainda mais agora que o sobrinho também estava gostando de gatos) trouxe um gato de presente para Maria, que de sua mesada tirou um real e deu para Joãozinho. O menino guardou a moeda.

Sexto, sétimo, oitavo, nono gatos; sexto, sétimo, oitavo, nono reais para Joãozinho, que comprou a cesta de roupas sujas.

Décimo gato. Maria comprou outro gato e deu mais um real para o irmão. À noite, quando a irmã dormia e os gatos perambulavam insones pela casa, o menino pegou os dez bichinhos, colocou-os na cesta de roupas sujas, despejou o querosene, riscou um fósforo e ateou fogo. Foi um gaticídio como há muito não se via. Joãozinho fez as contas e achou que tinha feito um bom negócio. Estava (pelo menos por enquanto) livre dos gatos e ainda tinha lucrado um real e uma caixa de fósforos quase cheia. Propôs à irmã que continuassem com o trato.
  
(Gravatá, 14-05-2001)

Jornal do Dia


Mauro Bahia


Tragédia na igreja: um golpe de enxada e padre Machado foi-se

Tudo o que ela pediu, Adolfo deu

Para crime passional, polícia tem dois peitos e um suspeito

Ana Crônica não é mais escritora. Virou tosse

Almirante cabotino leva cabo Tino ao mirante

Banqueiro diz que quem dá aos pobres, ou empresta, adeus

Gago acha que meia palavra basta

Top model afirma que pentear o cabelo é atividade intelectual

Há 40 anos cubano mantém a ditadura

Nadador encalha nos 100 metros rasos

Procon apreende fogão de oito bocas que não dizia uma palavra

Juiz decreta prisão de ventre preventiva para garantir feijoada

Médico é processado: travesti que mudou de sexo agora gosta de mulher

Contrato só permite a Roncaldinho jogar em video tape

Big Mac


Mauro Bahia


Até quando os eventos aqui narrados vieram a acontecer, Garibaldino Ostrósimo, um pequeno proprietário de imóveis urbanos em Bom Jesus da Lapa, Bahia, estava satisfeito da vida. Rico, não era. Mas arrecadava uns trocados com os aluguéis e ia levando a vida muito bem, sim, senhor. Seu maior patrimônio era uma casa de três andares onde, no último, ele morava. O prédio ganhara o apelido de Big Mac. Garibaldino ficava todo orgulhoso.

Mas o homem achou de alugar o primeiro piso para uma oficina de soldas. Soldas mesmo, de oxigênio, com foguinho e tudo. E com aquele cara vestindo a máscara protetora. Até aí, nada de mais, não fosse pelo fato de que o andar do meio já tinha sido ocupado por um comerciante de explosivos. Coisa besta, umas bombinhas de São João.

Quatro dias depois, o Zé da Solda começou a trabalhar. Era uma sexta-feira e Garibaldino estava deitado em sua rede, após o almoço. Ouviu um barulho muito grande, vindo de baixo.

– POOOMMM!!!

Foi carne com osso prá todo lado. De Garibaldino, o maior pedaço que se encontrou pesava 150 gramas. Um Big Mac.


(Gravatá, 05/ 09 /2000)

Descartes e Cartesdes


Mauro Bahia


Enquanto escrevia o Discurso do Método, Descartes era guarda livros do Sr. Cartesdes, abastado comerciante de secos e molhados. Um bico, pois o que a Descartes interessava mesmo era a filosofia. E nela ele punha sua alma – e o máximo de seu esforço físico. Nem todas as vinte e quatro horas do dia lhe bastariam para dedicar às suas reflexões.

Descartes era um empregado competente mas, como passava as noites em claro, faltava muito ao trabalho. Até que, uma certa manhã, o patrão perdeu a paciência e resolveu ir buscá-lo em casa. Encontrou-o dormindo, em meio a papéis rabiscados. “Não sei se existo, não sei se existo. Não tenho certeza”, repetia o filósofo noturno nos seus escritos.

Cartesdes ficou perplexo: pelo visto, o problema do rapaz era mais grave. Resolveu dar um tempo. Quem sabe, pensou, quando ele descobrir que existe, se lembre também que tem um emprego. De modo que ficou o não dito pelo nem sequer pensado e o patrão voltou para a loja.

Só que as coisas não melhoraram. Provavelmente porque, com o tempo, suas dúvidas existenciais se tornavam mais profundas (“será que esta mesa existe?”, “será que essa caneta existe?”), Descartes foi fazendo intervalos cada vez maiores entre uma e outra visitas ao trabalho. A essa altura, a contabilidade do armazém já tinha virado uma zorra.

Era inevitável: um dia, o patrão perdeu a paciência e decidiu não mais pagar o salário do guarda-livros. (“Se ele não sabe se existe, não vai nem notar”, pensou Cartesdes).

No início, foi o que aconteceu. Mas, depois de dois meses, Descartes já não conseguia dormir, nem de noite, nem de dia, com os credores batendo à sua porta: Mesmo assim, ia levando: “não sei se existo, não sei se existo”. Nada parecia abalar sua falta de certeza.

Até que apareceu o senhorio, anunciando que ou recebia o aluguel, ou ia despejá-lo no dia seguinte. A imagem de seus manuscritos sendo jogados na rua foi demais para o filósofo. Nessa mesma noite, veio o estalo.

“Devo, logo existo”.

Foram os seus editores que, mais tarde, substituíram essa por aquela frase idiota, aplicável a tão pouca gente, no mundo. 

O que aconteceu na Pischichina


Mauro Bahia


Na Pischichina, aí por volta de 2.000 A. C., a religião ensinava que não apenas o corpo do rei era sagrado; qualquer coisa que proviesse dele também era. Isso gerou o costume de se guardar toda a produção de resíduos reais, desde o nascimento do príncipe herdeiro, até à sua morte. Fezes, urina, suor, cuspe, nada se podia perder. Os sacerdotes diziam que o rei tinha de levar tudo aquilo consigo, para a vida eterna. Se faltasse um só pedaço de unha, seu espírito e o de seus súditos ficariam eternamente vagando pelos mundos obscuros do Além-Mar.

Não se sabe que consequências essa doutrina teve lá nas alturas. Cá embaixo, os problemas foram enormes, entre outras coisas porque, quando o rei vivia muito, os Sagrados Armazéns de Bosta, como eram oficialmente designados, podiam se estender por quarteirões e mais quarteirões – ocupando muito espaço e gente. O manuseio das fezes ficava com os escravos, mas a administração era monopólio dos sacerdotes, cujo número e riqueza crescia em proporção às quantidades acumuladas de excrementos.

É verdade que os religiosos trabalhavam duro, inventando métodos para melhor guardar aquelas emanações de apreensão mais complexa. Preservar o suor real, por exemplo, sempre foi muito difícil. E os gases expelidos, pior ainda. Para os que saíam por baixo, a solução foi afixar bexigas de peru às partes traseiras do soberano. Mas os arrotos permaneceram escapando ao controle por muitos anos, a despeito das advertências divinas de que aquilo podia custar a danação eterna.

Contra essa espécie de argumento, o rei nada podia fazer, a não ser pagar melhor aos magos, de modo a que eles interpretassem a palavra divina com flexibilidade. Para fazê-lo, contudo, era preciso cada vez mais dinheiro, o que obrigava a Pischichina a expandir continuamente seus domínios. À medida que o império aumentava em extensão, novas conquistas exigiam campanhas em lugares cada vez mais distantes. Como a tradição era que o imperador chefiava pessoalmente o seu exército, longas ausências do rei significavam ameaças maiores à integridade de seu acervo excremental, tanto o que já estava acumulado quanto o que ele iria produzir, durante a guerra.

Frequentemente, carregar os dejetos do rei, dos campos de batalha até a capital, constituía tarefa mais árdua do que derrotar o inimigo. Trabalho para os escravos, oportunidades para os religiosos, e sacrifício para a plebe, que tinha de pagar tudo aquilo. Os sacerdotes, satisfeitos, realizavam cultos e mais cultos em louvor ao sagrado cocô real. Mas, ao mesmo tempo em que as montanhas de merda se acumulavam sem limites visíveis, o povo, apesar de submisso, alimentava seu ressentimento.

Até que, num ano de derrotas militares, veio uma chuva sem fim. Um dia, dois dias, três meses, só chuva. Os armazéns tinham goteiras, de modo que a chuva acabou por derreter fezes, catotas e suores reais. Foram cem dias que abalaram o mundo. No meio da tormenta, por sugestão dos sacerdotes, Esperidião, o Último, ainda tentou um golpe, mandando recolher excrementos do povo, para substituir a parte do seu que virara água. Debalde. Seitas alternativas denunciaram a manobra, insuflando grave revolta popular. Era de manhã – e ainda chovia -- quando a população invadiu os Sagrados Armazéns, saqueando e quebrando tudo.

Com a crise político-religiosa, ruiu também o império: a Pischichina foi conquistada pelos cornovacos, seus antigos vassalos, cujos sacerdotes garantiam que a salvação eterna seria daquele que conseguisse comer maiores quantidades dos resíduos reais. Não bastou para quem quis.

(Gravatá, janeiro de 2000)

Jerobaldo


Mauro Bahia


A loura super gostosa estava paquerando Jerobaldo escandalosamente, a ponto de roçar suas coxas nas dele, aproveitando um pretexto idiota. E de inclinar-se em frente àquele pobre analfabeto, deixando os seios inteiramente à mostra. E aí o homem não se conteve: fez um sinal para ela, que lhe respondeu com um afirmativo piscar de olhos. No instante seguinte, estavam se esfregando um no outro, num recanto mais escuro da festa.

Foi quando Jeroba acordou, com duas ratazanas enormes se engalfinhando em cima de sua barriga, uma goteira vertendo água do telhado diretamente no seu olho esquerdo, a mulher plena de sarnas e falta de dentes gritando que ele ia perder o trem das cinco, a barriga doendo de fome, a lembrança de que hoje fazia três meses de aluguel atrasado, a visão de seu galo de campina morto estorricado na gaiola – e aquela poça d’água logo em frente ao barraco, onde ele fatalmente cairia estatelado.

Mas de onde levantaria no instante seguinte, ao rever aquela loura super bonita que, como no sonho, lhe paquerava escandalosamente, a ponto de roçar suas coxas nas dele, aproveitando um pretexto idiota. E de inclinar-se em frente àquele pobre analfabeto, deixando os seios inteiramente à mostra. E aí o homem não se conteve: fez um sinal para ela, que lhe respondeu com um afirmativo piscar de olhos. No instante seguinte, estavam se esfregando um no outro, num recanto mais escuro da rua, naquele fim de madrugada.

Desta vez, Jerobaldo comeu-a, (TOCAM OS PRIMEIROS ACORDES DA QUINTA SINFONIA DE BEETHOVEN) com ratazanas e tudo, com goteiras e tudo, com a mulher cheia de sarnas e falta de dentes gritando-lhe que ele ia perder o trem das cinco e tudo, com a barriga doendo de fome e tudo, com aluguel atrasado e tudo, com seu galo de campina cheirando a podre e tudo, com aquela poça d’água que lhe encharcara os ossos e tudo. Foi a foda mais gloriosa de sua curta existência, uma existência de jerobaldo, faminto e analfabeto.


Nesse dia, o país inteiro acordou eufórico. 

Caterpillar e seus amigos


Mauro Bahia

Desde o berço a mamãe punha a maior fé naquele menino. Hoje, adulto, João Caterpillar de Souza é engenheiro. Constrói represas em sopas. Em qualquer tipo de sopa, o que é, ainda, mais notável. (Claro que as melhores são as sopas de verduras picadinhas, mas Caterpillar não escolhe: deu sopa, ele faz uma represa).

Pena que o engenheiro exerça seus talentos num hospício, onde a única pessoa que lhe observa as obras é Ubaldo Gumercindo da Silva, emérito falsificador de moedas de três centavos. Esse, por sinal, é outro injustiçado: só porque o Banco Central nunca conseguiu fazer moedas de três centavos tão boas como as dele, sua produção encalhou e ele acabou sendo preso.

No hospício, entretanto, o dinheiro circula livremente, inclusive porque Ubaldo tornou-se ministro da Fazenda. A inflação chegou ali prá valer, um dia depois de sua posse, mas ele reagiu cortando cada caixa de remédios pela metade, para reduzir as despesas em cinquenta por cento, dentro das metas acertadas com o FMI. Deu tão certo lá dentro como em qualquer outro lugar. E foi tudo feito de forma legal.

De fato, Otaviano Bragança, jurista e ocupante do quarto ao lado, já emitiu vários pareceres garantindo a constitucionalidade do processo. Em moedas de três centavos, Bragança recebe um bom dinheiro por cada parecer, mas desperdiça tudo apostando em cavalos de pau. Se não fosse por esse vício, já teria comprado um bilhete do poupa-ganha e hoje seria um homem rico.

Seria, mas não é. Ao contrário, só não passa fome no hospital psiquiátrico porque um amigo, Geraldo Nepomuceno, companheiro de quarto, o sustenta, com o dinheiro que ganha escrevendo discursos para Napoleão Bonaparte.

São peças da mais fina oratória militar, que Napoleão utiliza sempre que consegue fugir do manicômio. Da última vez que o fez, invadiu a Rússia com três discursos, mas um deles continha erros de português e o ataque foi repelido pela múmia de Ramsés II. Nepomuceno atribuiu os erros ao corretor gramatical de seu processador de textos, cujo prazo de validade estava vencido. Napoleão aceitou a explicação e vai manter a aliança militar, até a conquista de Kosovo. Seu único problema é com a própria identidade, que precisa continuar secreta.

Isso porque, ninguém sabe disso, mas na ficha de Napoleão não consta esse nome e sim o de Francisco Bernardino dos Santos. Ninguém sabe, vírgula. Rescaldo Sangrento, economista com uma vasta obra não publicada, nem escrita, sabe. Felizmente, Rescaldo, cujo tipo de desequilíbrio mental o Dr. Freud ainda não conseguiu especificar, é uma pessoa muito educada, que só vai contar o segredo para deus e o mundo.

Para Deus, será mais fácil: dizem que ele é o diretor do hospício. Mas não há certeza disso, pois este senhor nunca aparece. Meio mundo acha que ele nem existe. Não é o que pensa João Caterpillar, construtor de  represas em sopas.

Em se tratando da opinião de um engenheiro, deve ser correta.

(Gravatá, janeiro 2000)

Filosofia em pingos


Mauro Bahia



 I            
Namorei, durante anos, uma janela, por trás da qual deveria haver uma mulher, a quem jamais vi. A vantagem das janelas é que elas são eternas. Ou, pelo menos, eu assim pensava, até a passagem do furacão Katrina.
II          
Severino Bastino podia ser burro, mas tinha senso de lógica. Comparando, aos setenta anos de vida, o número de vezes em que se masturbara com o de relações sexuais que tivera, concluiu que a grande paixão de sua vida tinha sido ele mesmo.
III         
O sonho de Aldo Cabeçote era ver um italiano cortando macarrão. Aldo conseguiu muitas coisas na vida, das que o dinheiro compra e das que só a sorte é capaz de trazer. Foi amante de Sofia Loren; dono de um castelo no vale do Loire, sócio de Drácula numa churrascaria de carnes mal passadas. Conheceu pessoalmente o Imperador Hiroíto, com quem jogava paciência toda quarta-feira à noite. Ainda comeu um pedaço do bispo Sardinha, guardado durante cinco séculos. Uma vez, hóspede oficial do Vaticano, perdido entre os cômodos do palácio, abriu a porta errada e viu o papa sentado na latrina, em plena obra. Mas Aldo Cabeçote morreu frustrado. Nunca viu um italiano cortando macarrão.
 IV         
José Nepomuceno estava muito bem de vida, sim, senhor. Alegre, contente, barriga cheia, boa saúde, tinindo. Ou, pelo menos, era isso que ele pensava. Não seus amigos. Convenceram-no de que devia consultar um médico. Nepomuceno hesitou. Estava bem, sentia-se bem, ora bolas. Seus amigos insistiram: “não se descuide, Nepo”. O homem terminou capitulando. Foi ao clínico geral, que lhe mandou fazer cento e oitenta exames. E a mais três doutores, que apenas lhe perguntaram se seu seguro estava em dia. Sob protestos, foi internado. Morreu em duas semanas. Infecção hospitalar.
 V          
O médico: “Sua bursite transformou-se numa tendinite e está virando uma tasfudidite...”.
O paciente: “Tasfudidite???"
O médico: “Eu não, tu”.
VI         
Na Pérsia antiga, havia terremotos, pestes bubônicas, furacões, bichos de pé, programas de ratinhos, e muitas outras catástrofes naturais. Mas o que os persianos e persianas realmente temiam era que Paulo Coelho e Leonardo Boff um dia escrevessem um livro juntos.
VII       
E tem a estória da mulher que vendia água de coco, à beira mar. Era a praia, o luar, um violão em seresta e aquela mulher, que era uma delícia. Não, não, me engano. A mulher era uma merda. O coco é que era uma delícia.
VIII      
Há ditadores que adoram uma ditadura.
 IX         
-- Zezinho é uma pessoa muito inteligente. Um sábio.
-- O que é que ele sabe tanto?
-- Saber, mesmo, ele não sabe não. Mas desconfia de uma porção de coisas.
 X          
-- Devo o que sou às surras que levei de meu pai, quando criança, dizia o velho moralista, a uma platéia de babacas.
-- E o que ele é, exatamente?, pergunta um dos ouvintes ao seu vizinho.
-- Aleijado.
                                                                                                                                                          XI         
Aviso em porta de igreja:
O hino O Senhor é meu pastor, nada me faltará não foi cantado trasantontem por falta de voz.
PS. 1: Este aviso deixou de ser colocado anteontem por falta de tinta.
PS. 2: Eu não escrevi isso ontem por falta de saco.
P.S. 3: Tô escrevendo hoje porque o vigário mandou, mas ninguém vai ler, por falta de luz.
Assinado: Zezinho Faxineiro (por falta do sacristão...)
 XII       
Ensina-nos a História da Australásia Ocidental que o rei D. Peido I foi pai de D. Peido II, que foi pai de D. Peido III, que foi pai de D. Peido IV, que foi cortado em pedaços e vendido no açougue, porque o povo australasiano percebeu que era burrice continuar sustentando aquela família de vagabundos que passavam o dia peidando.
XIII      
A tentativa dos bombeiros de apagar o incêndio foi debalde.
XIV      
Pesquisa do IBOPE, em dez capitais, identificou as três marcas que mais fizeram propaganda no ano passado: Jesus, a cerveja Antártica e o cigarro Free.
Comentário distraído de Rescaldo Sangrento: “Tudo droga.”
     XV       
Um incidente político-ecológico aconteceu numa hora de almoço qualquer, num recanto remoto qualquer deste país, quando o português Joaquim Felisberto, funcionário da Funai, instado a levantar-se da mesa para receber o cacique local (o comitê de recepção gritava, do terraço: “vem Joaquim, vem Joaquim”) respondeu:
-- Espera, estou comendo, ainda.
Entenderam que ele estava comendo “a índia” e aí foi uma merda total.
XVI      
Minha vida só não é mais sedentária porque eu tomo muita água.
XVII    
A maior salva de palmas já registrada no mundo ocorreu em 1978, durante a apresentação do Balé Bolshoi, em Pequim. Cento e dez mil pessoas aplaudiram o conjunto, durante sete minutos seguidos. Considerando que, em média, uma pessoa bate duas palmas e meia por segundo, e que há 420 segundos em sete minutos, deduz-se que as 110 mil pessoas bateram 115,5 milhões de palmas. Admitindo que, em cada sete palmas batidas, pelo menos uma acerte mortalmente um inseto, pode-se estimar que, naquela noite, morreram 16,5 milhões de mosquitos. Como, em média, 2.500 mosquitos pesam um quilo, houve 6.600 quilos de insetos mortos. Isso daria para alimentar 776 sapos, durante doze meses, como se deduz facilmente, sabendo-se que cada sapo consome 8,5 quilos de mosquitos por ano. Sendo que, com a pele de três sapos se produz uma bolsa que se vende por 4,5 dólares, conclui-se que a salva de palmas ao Balé Bolshoi causou um prejuízo de 1.164 dólares à República Popular da China. Portanto, nada mais justo que aqueles bailarinos frescos tenham sido todos fuzilados. 

Antimósio compra sua vaga


Mauro Bahia

No seu leito de hospital, pouco antes de morrer, Antimósio C. Borréia soube que um corretor de imóveis queria vê-lo. Achou estranho, mas mandou entrar.

– O senhor sabe que não irá durar muito, começou falando o visitante, e eu estou preocupado com seu bem-estar eterno. Sou enviado da Igreja Grupal. Estamos fazendo uma promoção. Temos vagas tanto no Céu quanto no Inferno.

C. Borréia quase morre antes do tempo. Nunca tinha ouvido falar naquilo. Apenas conseguiu balbuciar:

– Como? O quê? O senhor é louco?

Louco, Fernando dos Anjos não parecia ser. Mostrou uma carta, com firma reconhecida e tudo: ele era mesmo um corretor de imóveis inferno-celestiais.

– Não, não sou louco. Antes, você só poderia escolher seu céu ou inferno depois de morrer. Era um horror. Agora combinamos com os candidatos antecipadamente. Oferecemos transporte e trinta dias de experiência, grátis. Quem não gostar pode ir para onde quiser. Inclusive para esse lugar aonde o senhor está pensando em me mandar, agora.

– Trinta dias grátis?, estranhou Antimósio. Quer dizer que, depois disso, tenho de pagar?

– Sim, claro, todos os céus cobram. Aliás, os infernos também. Só um pouco menos, porque lá não tem ar condicionado.

– Mas, como vou pagar, depois de morto?

– Não é depois de morto, é antes. Ih, já vi que o senhor não entende nada de religião.

(...)

A conversa prosseguiu, por mais meia hora, até que Antimósio foi convencido a comprar seu lugar no Céu. Entregou o caminhão com a rodagem nova, em pagamento. E a casa popular, quitada. Era tudo o que tinha. Prometeu que, do dinheiro que os filhos ganhassem, depois de sua morte, vinte e cinco por cento seria da igreja.

O corretor disse que ia falar com o bispo, pois as vagas no céu estavam acabando e o preço era mais de duas vezes aquele que Antimósio queria pagar. Em todo caso, levou o caminhão, por conta. E a escritura da casa. E a promessa dos filhos de deixarem o dinheiro na igreja, cada dia oito do mês. Ainda pediu um trocadinho, por fora, para o leite das crianças. Ganhou. Disse que o bispo estava numa pior e que os corretores faziam uma cota para comprar-lhe um helicóptero. Quem sabe a mulher de Antimósio não tinha guardado algum dinheiro, para essas emergências? Tinha. Que bom.

Chegou o almoço de Antimósio, em seu leito de morte. O corretor comeu-o, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo e de uma garrafa de cachaça que o esperava na bodega mais próxima, depois de uma visita tão abençoada. Antimósio ficou com fome, mas tranquilo. Não precisava mais dessas coisas terrenas, como um bife à milanesa, uma porção de purê e duas colheres de arroz. Tinha comprado sua vaga no Céu. Amém.


(Gravatá, janeiro de 2000)

O que aconteceu no Vietnam?

Mauro Bahia



Meu comandante me incumbiu de lhes informar sobre o que aconteceu no Vietnam, levando-nos a buscar refúgio aqui na Tailândia. 

Tudo começou quando percebemos que os comunistas haviam concentrado tropas juntos às cidades do planalto central e que iriam partir para a ofensiva. Incontinenti, o Estado Maior se reuniu, para deliberar o que fazer. Foi então aprovado o plano em quatro etapas do coronel Svuien Vuien, que previa, em sua primeira fase, o recuo e abandono de todas as nossas posições no interior; na segunda, o reagrupamento das tropas ao longo da faixa costeira; na terceira, o retreinamento das tropas e, finalmente, na quarta e última, o avanço global em todas as frentes. Devido a essa característica da sua última fase, a estratégia foi denominada Plano Grande Vassoura.

Devo confessar que seu êxito foi total apenas na primeira fase. A heróica retirada dos nossos soldados se processou numa velocidade tão grande que nem os mais otimistas poderiam prever. Houve até quem dissesse que a tropa só tinha pressa para fugir, mas isso é uma calúnia, a ser punida tão logo libertemos o nosso país, o que acontecerá muito em breve. 

Reagrupadas e retreinadas as forças, nas cidades costeiras, deu-se início à grande ofensiva de reconquista do solo pátrio. Foi quando começaram a se multiplicar os desastres. Os primeiros batalhões nossos a enfrentarem os comunistas foram esmagados. Como haviam deixado nossas posições com pouca defesa, aconteceu que o inimigo, após deter nosso avanço, marchou até às cidades costeiras, conquistando-as, quase todas. Ficara evidente o caráter suicida da Grande Vassoura. O coronel Svuien Vuien foi fuzilado e o general Van Tuieu assumiu o comando. A ofensiva foi suspensa e um outro plano, concebido.

A nova estratégia tinha três etapas: o recuo geral e abandono de nossas posições em todas as frentes, exceto na capital; a reconcentração de forças nessa cidade, e um avanço coordenado, em todas as direções, a partir de Saigon. Nosso então comandante costumava apelar para a analogia com uma porção de tinta derramada sobre um papel esponjoso, espalhando-se até dominar por inteiro o papel. Daí o nome, Plano Mancha, dado a essa brilhante concepção de guerra.

Novamente se cumpriu com perfeição a fase da retirada. Na verdade, a dedicação de nossos soldados em cumprir as ordens foi tanta que eles deixaram pelo caminho metralhadoras, canhões, até tanques. Os detratores disseram que a bravura dos soldados limitava-se às fases de retirada, mas essa é outra calúnia que será punida após reconquistarmos a pátria, o que ocorrerá em breve. 

Com todas as nossas forças reunidas em Saigon, acreditava o general Tuieu, o inimigo seria impotente para conter uma violenta contra-ofensiva de nossa parte. Quando esta foi ordenada, entretanto, repetiu-se o desastre anterior. Logo ficou claro que não poderíamos continuar defendendo a capital por muito tempo. Um outro plano se fazia imprescindível, especialmente depois do general Van Tuieu ter sido enforcado.

O novo comandante, marechal Nguien Guien, logo concebeu a estratégia, aproveitando-se de uma circunstância favorável. Os Estados Unidos, nossos aliados, haviam colocado a funcionar uma gigantesca ponte aérea para evacuação da população civil de Saigon. Esta ponte estava para ser desativada, porque, apesar da aparentemente inevitável queda da capital, não havia quem quisesse sair de lá. Os americanos, naturalmente, já tinham ido embora. 

O plano do marechal Nguien Guien era simples e infalível, e tinha duas etapas. Na primeira, utilizando a ponte aérea, retiraríamos o exército da capital, concentrando-o aqui na Tailândia; na segunda, executaríamos um desembarque em massa de paraquedistas no nosso país. Seria um desembarque simultâneo em vários pontos, sendo que, de cada um deles expandir-se-iam nossos exércitos, até a vitória final. O marechal denominou a estratégia de Plano Pingos.

Outra vez, a primeira etapa foi cumprida à risca. Ainda me lembro do entusiasmo com que a população viu seus defensores partirem. Na verdade, o entusiasmo era tão grande que alguns caluniadores disseram que o povo estava feliz com nossa saída, mas isso é uma grande inverdade, que será punida, com todo o rigor, quando retomarmos o governo. 

Antes de iniciar a segunda etapa do plano, contudo, o marechal Nguien Guien lembrou que nossas forças armadas não dispunham de paraquedistas. Foi preciso contratar mercenários para a missão. Só depois disso, a fase dois do Plano Pingos teve início. Infelizmente, ao contrário da nossa ofensiva apanhar os comunistas de surpresa, nós é que fomos surpreendidos. Todos os nossos paraquedistas foram mortos no ar. Por ordem do Estado Maior, o marechal Nguien Guien foi jogado de helicóptero no meio do oceano. Sem paraquedas.

Pois bem, meus caríssimos senhores. Solicitamos esta audiência para lhes informar que uma grave ameaça paira sobre a Tailândia. Os comunistas nos enviaram a conta das despesas com a munição usada para abater nossos paraquedistas. Virão ao nosso encalço, se não saldarmos imediatamente este débito, coisa impossível. 

Os nossos generais acham que o governo tailandês deveria pagar a conta, a qual lhe será rembolsada, tão logo reconquistemos nosso país. Para tanto o hipermarechal Tutu Tutun tem o infalível Plano Moléculas, que consiste em apenas uma etapa: a retirada de nossas tropas do território tailandês. (Para onde, ele não sabe.) Este plano não falhará. 

Talvez haja outra etapa, mas o comandante ainda não está bem certo sobre ela. Ele apenas está absolutamente seguro de que nossa vitória final é somente uma questão de dias.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Diário de uma viagem aos States


Mauro Bahia

1 de janeiro. Desembarco em New York, nome que os americanos escrevem igualzinho a nós. Logo percebo que produtos brasileiros, como a Coca Cola e a Pepsi, são muito conhecidos aqui. Por sinal, aquela rede nordestina de supermercados, a Walmart, também já chegou aos States. É uma das maiores.
2 de janeiro. Nós tivemos uma ditadura, mas eles é que pegaram gosto pela coisa. Ninguém precisa andar muito para ver os nomes de militares ilustres escritos em letras luminosas: General Electric, General Motors (este parece que anda encrencado), General Groceries... Até patentes menores são homenageadas: o tal de Major Sale, por exemplo, está em todas as lojas.
3 de janeiro. Incrível! Eles também têm happy hour. Designers são chamados de designers; computadores vêm com softwares, hardwares e wireless, como os nossos; quando vê que eu trouxe dinheiro vivo, o boy do hotel sugere que eu aplique numa offshore; na TV High Definition, a top model entra na franchise e come um Big Mac (merchandising, claro); passo na travel agency, que fica num business center, para remarcar meu ticket... Em resumo, eles falam português.
4 de janeiro. Não sabia que era assim, mas aqui há muitos fast foods, networks, call centers, shopping-centers... Engraçada, essa mania dos americanos colocarem nomes brasileiros nas suas coisas. Só pode ser Obama com inveja de Lula.
5 de janeiro. Ontem, andei pela cidade, observando os restaurantes delivery. Todos fazem entregas. Quando voltar, vou abrir um, mas não quero fazer entregas. Eles aqui nunca tiveram esta idéia: um delivery que não faz entregas. Com certeza, irão me copiar, no futuro.
6 de janeiro. No aeroporto, depois de algum tempo procurando, finalmente, encontro um WC. Foi um alívio, apesar do nome errado na porta: querem dizer “o homem” e escrevem “women”. Enquanto espero o avião, fico online, browsing no Facebook e em outros sites. Durante estes dias, senti-me em casa. Aqui é tudo igual ao Brasil, nem língua própria eles têm.




(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 18, janeiro de 2010)

Fragmentos de um jornal


Mauro Bahia





Em poucos anos de vida, o Diário do Dia, que se autodenominava DDD, o matutino pernicioso”, fez história. O jornal encerrou a carreira depois do incêndio que destruiu sua sede, embora ele não fosse sediado em lugar algum. Mas, outro dia, revirando papeis, encontrei uma página amarelada. Era da seção cultural do Diário – precisamente, a mais famosae continha notas como essas.
CINEMA
Tarzan em Terra Minha. O lendário herói viaja da África para o Brasil pelo caminho das árvores e aqui se envolve em intriga amorosa com administrador de zoológico. A macaca Chita interrompe a análise para socorrer o amigo, mas é detida pelo Ibama, ao tentar entrar no país. Em exibição, no Rex.
Centelha Vermelha na Curva do Rio. Um dos poucos índios a fazer carreira em Hollywood, Centelha Vermelha tenta convencer um inocente missionário que a parte mais importante da canoa é o mastro. Termina conseguindo, mas não sem expor o religioso a grandes perigos. Relançamento, em breve, no Palace.
LIVROS
Autobiografia de Mim Mesmo, de Jaime K. Gay. Ator medíocre, o único papel importante da vida de Jaime lhe foi dado aos sete anos: o papel higiênico. Aos 18, abandonou a carreira artística, dedicando-se, exclusivamente, a cometer suicídio. Neste setor, seu desempenho foi bom: em 15 tentativas, acertou quatro. Pouco antes de sua morte, que ainda está para acontecer, o ex-ator publica a Autobiografia, mistura de irrelevância literária com erros de português. Ótima leitura de férias para desempregados.
Obra Completa, de Rescaldo Sangrento. Depois de 180 anos com prisão de ventre, o remédio fez efeito e Sangrento produziu sua Obra. Mas o livro é de leitura difícil, pois ninguém consegue decifrar a caligrafia do autor. Nestas condições, as melhores páginas são as que foram deixadas em branco.
Antes de jogá-lo do 150 andar, porém, lembre-se de que há coisas aproveitáveis no livro. O papel, por exemplo, é reciclável e pode ser aceito como doação, se você arrancar as páginas em que aparece o nome do autor. Livro destinado a se tornar um clássico, mais ou menos, do nível de um jogo entre a Bolívia e El Salvador, a Obra Completa tem uma vantagem: como nunca foi escrita, também não precisa ser lida.
SHOWS
Jacinto Filho. O violonista turco-paraibano, especialista em música polonesa precolombiana, interpreta os últimos sucessos de Chitãozinho e Xororó. Geralmente, o Procon aparece e obriga a produção a devolver os ingressos. (Leve seu celular; você vai ter de chamar os bombeiros, pois o desastre é inevitável.) No Canequinho.
Olho Dum. Conjunto baiano inicia temporada no Pacaembu, mas a Vigilância Sanitária recomenda que, na primeira semana, o público se dirija ao Morumbi, distante 20 km. Para os shows seguintes, esta precaução não será necessária, pois, até lá, terão chegado as duas toneladas de desodorante que a Justiça ordenou fossem entregues à banda. No Morumbi (ou melhor, Pacaembu).
ARTES PLÁSTICAS
CXXXIII Bienal. Depois de passar pela bilheteria, o visitante será conduzido ao salão de exposições, onde não existe absolutamente nada, além das paredes, chão e teto. A crítica tem sido entusiástica, considerando que, nesta Bienal, finalmente, foram atingidos os ideais da escola abstracionista. No Anhembi. (Leia o comentário de Pedro Pierre, abaixo.)
Imperdível. Atenção leitor interessado em arte: a Bienal está imperdível. Im-per-dí-vel. Território dominado pelos abstracionistas, imagine que você não consegue ver, tocar, cheirar, ou manusear nenhuma das peças em exposição. É o triunfo final das idéias de Picasso, Dali e Diacolá.
Até ontem, não se podia dizer que o abstracionismo reinasse sozinho nas artes plásticas, pictóricas e mictóricas, pois também existiam o concretismo, a argamassa e o tijolo aparente. Agora, o triunfo da escola é definitivo. A tal ponto que, de concreto, na Bienal, só mesmo o preço dos ingressos.
O leitor que me perdoe o entusiasmo, mas me faltam palavras para expressar a satisfação que sinto em não ver a arte contemporânea. (Pedro Pierre)

Vivendo perigosamente


Mauro Bahia

Houve um tempo em que cachorro quente ainda não havia sido promovido a “rótidogue”. Era “comeu, morreu”. Não literalmente, claro, mas sempre havia o medo. Eu mesmo sou um sobrevivente. Com certa freqüência, anos atrás, nas saídas do futebol ou das festas, era traído pelo olfato e, contra todos os conselhos, encostava-me a um daqueles tabuleiros de aparência suspeita e higiene duvidosa para terminar minha noite com um suculento “comeu, morreu”. Flertava com o perigo e, às vezes, colhia dois ou três dias de instabilidade intestinal.
Sabíamos que os vendedores engrossavam o molho acrescentando papel higiênico ao preparado. A mistura ia ao fogo por horas e, ao fim do processo, não se podia mais distinguir a carne do que tinha sido outra coisa. Nessa química, o ingrediente complementar preferido era o papel higiênico Tu-Let, cujas vantagens incluíam ser um tipo bem barato, facilmente desagregável, e que já vinha colorido de vermelho, ou seja, de “encarnado”. Desta forma, com seu nome sugestivo, o Tu-Let fez sucesso não apenas nas latrinas, mas também na culinária regional.
Episódios marcantes fazem parte da história ainda a ser escrita dos velhos “comeu, morreu”. Um exemplo: Alfredo Soares, economista, professor de Estatística e praticante da praia de Serrambi, testemunhou o seguinte episódio. Certa madrugada, na porta de um clube em final de festa, ele ouviu uma voz forte que dizia:
– Olha o cachorro, olha o cachorro; gordo e quente, gordo e quente...
Quem assim gritava, enquanto mexia o panelão com enorme colher de pau, era um vendedor suado, desgrenhado e seminu. Foi quando se aproximou do tabuleiro um pretendente comprador. Estava com fome e devia ter bebido muito, pois sua indisposição era visível. Tendo pouco dinheiro, arriscou negociar um desconto:
– Faz um meno, cara.
– Menos nada, chefia. É dez mil cruzeiro.
Dez mil, o rapaz não tinha – nem pensar – mas ele ficou ali, como se estivesse grudado, respirando aquele ar alimentício. E ficou. E ficou. Até que, sob o efeito de tanta bebida indigerida, vomitou abundantemente, nada mais, nada menos que dentro da panela com o recheio do cachorro quente. Na presença, não apenas, de Alfredo Soares, mas também de uma multidão que devia incluir até o Repórter Esso, testemunha ocular da História. (Faz tempo, hein?)
Ato contínuo, o infeliz bêbado e faminto levou uma tremenda bronca e teve de ir embora, sem comer nada, mas se sentindo aliviado. Para surpresa de Alfredo, contudo, o vendedor suado, desgrenhado, seminu, e, agora, aborrecido, não se perturbou. Pôs mais carvão no fogo; acelerou o ritmo da colher de pau, para misturar as novas substâncias às antigas;, e continuou gritando:
– Olha o cachorro, olha o cachorro; gordo e quente, gordo e quente...
Depois desse incidente, rapidamente contornado, as vendas continuaram tão boas quanto antes, até um pouco melhores. (Acaso, um novo tempero acabara de ser descoberto?) O homem faturou alto. E não se soube que o movimento do Pronto Socorro tivesse sido maior, naquela noite. De “comeu, morreus”, entretanto, o professor passou a guardar prudente distância, desde então.
Vivíamos perigosamente, é verdade. Mas, no final, quase não havia vítimas. Na linguagem estatística de alguns alunos relapsos de Alfredo Soares, a “esperança” de comer um suculento cachorro quente após as festas e o futebol era sempre alta; a de morrer, não significantemente diferente de zero, com margem de erro de dois pontos para cima e dois para baixo.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 2, n. 10, outubro de 2008)

Sindicato do Crime


Mauro Bahia


Naquela tarde de domingo, os membros do Sindicato estavam tensos, quando seu chefe começou a falar:

– Tenho recebido as maiores queixas. O governo está perdendo popularidade e acha que a culpa é nossa. Estamos faltando aos nossos compromissos. Mas vamos reagir. Enquanto há vida, há esperança, inclusive, esperança de mortes.

Esperança de mortes? Sim, claro. Por que, afinal, se havia criado aquele sindicato, se não para tornar mais previsível a produção de delitos? Havia crimes, antes. Mas faltava organização. Por causa disso, muito dinheiro era desperdiçado. O governo precisava saber quantos assassinatos iriam acontecer no próximo ano – e nos seguintes. Só assim seria possível fazer um planejamento perfeito, com as verbas da polícia bem definidas, os bancos de sangue supridos na medida exata, os cemitérios empregando quantos coveiros fossem necessários. Nem mais, nem menos.

Um dia, se atingiu esse ideal, mas somente depois de muitos fracassos. Desiludido de prever crimes que não aconteciam, o governo tratou de buscar soluções inovadoras. Foi um ministro quem propôs:

– Tem muita gente dizendo que mata e esfola, mas quem faz mesmo isso são poucos. O que precisamos, para saber quantas mortes ocorrerão, ou quanto dinheiro será roubado, é reunir os criminosos e criar um sindicato. O governo entra com os regulamentos, pode até criar uma linha de crédito para os assaltantes. Em compensação, o sindicato garante que os crimes prometidos serão, realmente, executados.

Tão simples, depois de dito. Com a idéia aprovada, o sindicato criado e a cobertura legal garantida, tudo passou a funcionar bem. Tendo os desvios de verbas já incluídos no orçamento, o governo conseguiu determinar, finalmente, a quanto montava o superávit primário. Mais importante: sabendo o que iria acontecer, o Presidente dizia a verdade, coisa, até então, inédita. Sua popularidade atingiu níveis jamais sonhados.

Na esteira desse sucesso, o Sindicato dos Ilustres, como preferiu ser chamado, tornou-se o braço direito das autoridades. Nenhuma decisão importante era tomada sem que os criminosos fossem consultados. Em reconhecimento, o Congresso aprovou uma lei abolindo as penas para a maioria dos crimes; alguns passaram a ser considerados de utilidade pública. Meliantes famosos assinavam colunas nos maiores jornais; o chefe dos ilustres chegou a ser ministro da Justiça; batedores de carteira eram, rotineiramente, nomeados secretários de Segurança Pública; num determinado momento, todos os diretores do Banco Central eram falsários; o presidente do Tribunal de Contas, um conhecido estelionatário.

Enquanto funcionou, o esquema foi admirado em todo o mundo. De repente, entretanto, as coisas começaram a dar errado. Empolgados com o prestígio, os criminosos passaram a relaxar em suas obrigações. A cada mês, diminuíam os assaltos e aumentavam os erros de previsão. O sindicato já não conseguia realizar todos os crimes que prometia e que o governo tomava como certos, em seus programas sociais. A popularidade do Presidente despencava. Alguma coisa tinha de ser feita.

***

Naquela tarde de domingo, o chefe do sindicato consumia-se em nervosismo; afinal, muito mais do que sua reputação de escroque estava em jogo. Era preciso acordar aqueles criminosos, apelar para seu orgulho. Pôs na voz toda a ênfase que pôde.

– Um sindicato que não cumpre as suas promessas não merece o prestígio social que conquistou. Temos que roubar mais, matar mais, cometer os crimes que prometemos. Não é uma questão de escolha, mas de dever.

Assim concluiu, em êxtase, o mais importante dos ladrões. Foi saudado com uma ovação. Naquele instante, promessas foram refeitas; lealdades, reafirmadas. Não houve um só criminoso, do mais humilde ao mais rico, fosse ele falsário, vigarista, assaltante, pistoleiro ou arrombador, que não tivesse se sentido tocado em seus brios e se determinado a reagir, para cumprir os compromissos esquecidos.

Na igreja ao lado do sindicato, o padre também havia sido incisivo:

– “Sodoma e Gomorra, nunca mais!”, esbravejara ele, calando fundo no coração de seu rebanho.

A missa e a assembléia terminaram ao mesmo tempo e, no aglomerado de gente que se ia formando em frente ao sindicato e à igreja, não se podia distinguir entre criminosos e crentes. Em uns, como nos outros, a sensação interior de fortaleza e determinação saltava à vista. Todos sorriam. Do alto de seus degraus, o padre contemplou a multidão e também sorriu. Podia sentir quase fisicamente a presença de Deus.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 15, junho de 2009)