sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O trem para Branquinha


Mauro Bahia


Se eu vier a escrever um livro de memórias, ele será chamado O trem para Branquinha. Que trem? Que Branquinha?
Primeiro, o lugar. Por muito tempo, distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas; a partir de 1962, pequena cidade quase esquecida das usinas e fazendas que lhe ficavam próximas: Monte Verde, do avô Nominando; Campo Verde – a fazenda, do tio Jovino; a usina, de outros parentes –; Três Paus; Guanabara; Cocho d’Água; Anhumas, da tia Helena. De vez em quando, Branquinha aparece nos jornais, invariavelmente, pelas razões erradas: inundações do Mundaú, escândalos políticos, ou seu notório Índice de Desenvolvimento Humano, um dos piores do estado.
Não nasci em Branquinha, mas foi por pouco. Meu irmão Ivan, sim, no remoto ano de 1943. Algum tempo depois, nossos pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder a esperança em criar sua família plantando cana-de-açúcar e, uma coisa levando à outra, ao trocar o campo pela cidade, Mauro pai escrevia sua versão particular de uma história comum a tantos contemporâneos. Eram demasiados os herdeiros de terras e de usinas na região do açúcar – não apenas em Alagoas, no Nordeste – e a cana não sustentaria a todos. Muitos saíam, procurando as cidades maiores, onde havia a Faculdade de Direito, com os diplomas, e o governo, com os empregos. Os que ficavam, proprietários e usineiros, repetiam a saga de seus pais: relativamente ricos, alguns; absolutamente endividados, todos. Por sorte, deviam ao Banco do Brasil ou ao também estatal Instituto do Açúcar e do Álcool. Ou seja, mesmo quando insolventes, encontravam meios de ir levando a vida.
Tendo perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a fazê-lo no Recife, em 1947. Deste ano até, pelo menos, a primeira metade dos 1960, passei as férias em Monte Verde. Em regra, viajávamos de trem; às vezes, íamos de avião até Maceió, onde vivia a avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, passados alguns dias, embarcávamos no trem para a fazenda. No percurso, eu sonhava com cajus. Continuo sonhando, embora tenha experimentado coisas ainda mais gostosas, desde então. Essa era Branquinha.
E o trem?
Da Gretueste (ou Great Western, para os mais cultos), depois Rede Ferroviária do Nordeste. Até 1954, locomotivas marias-fumaças, movidas a lenha e a vapor; nesse ano, apareceram as máquinas diesel e o percurso do Recife a Branquinha, quando, excepcionalmente, não havia atrasos, encurtou-se de dez para oito horas. Um espanto. Nas viagens, minha mãe tinha frequentes enxaquecas, porém se resignava, pois não havia outro meio de chegar à fazenda. Íamos na única parte do trem equipada com poltronas numeradas, mas o vagão especial atrasava tanto quanto os outros.
Algumas estações tinham nomes marcantes: Pontezinha, Paquevira, Maraial, Fernão Velho, Bebedouro. Nelas, respeitadas as especializações, podíamos comprar laranjas, bananas, doces, alfenins, cavacos ou rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava diariamente jornais e sacos de sururu. E havia o telégrafo, maravilha tecnológica da época; pelo código Morse, o vilarejo falava para o mundo.
O melhor da viagem era quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná Champagne e comer alguma coisa. Também me lembro do banheiro – melhor dito, da latrina – que se comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta embaixo do assento e não devia ser usada quando os trens estivessem parados. (Eu ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Frequentemente, me pergunto por que, no Nordeste, o trem da Gretueste não se associou a uma revolução industrial, como acontecera na Europa do século 19. Nem o trem, nem as grandes fábricas de tecidos, das quais havia tantas, no Recife e em estações como Fernão Velho, um bairro de Maceió.
Tenho, certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de diferentes épocas e lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar especial em minhas memórias. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, das enxaquecas de minha mãe, dos cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou da impressão que me causava ir deixando o cocô ao longo do caminho, às vezes, espalhado em quilômetros.
Um verdadeiro recorde.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 20, agosto de 2010)

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