Mauro Bahia
Se eu vier a escrever um livro de
memórias, ele será chamado O trem para
Branquinha. Que trem? Que Branquinha?
Primeiro, o lugar. Por muito
tempo, distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas; a partir de 1962, pequena
cidade quase esquecida das usinas e fazendas que lhe ficavam próximas: Monte
Verde, do avô Nominando; Campo Verde – a fazenda, do tio Jovino; a usina, de
outros parentes –; Três Paus; Guanabara; Cocho d’Água; Anhumas, da tia Helena. De
vez em quando, Branquinha aparece nos jornais, invariavelmente, pelas razões
erradas: inundações do Mundaú, escândalos políticos, ou seu notório Índice de
Desenvolvimento Humano, um dos piores do estado.
Não nasci em Branquinha, mas foi
por pouco. Meu irmão Ivan, sim, no remoto ano de 1943. Algum tempo depois, nossos
pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder a esperança em criar
sua família plantando cana-de-açúcar e, uma coisa levando à outra, ao trocar o
campo pela cidade, Mauro pai escrevia sua versão particular de uma história
comum a tantos contemporâneos. Eram demasiados os herdeiros de terras e de
usinas na região do açúcar – não apenas em Alagoas, no Nordeste – e a cana não
sustentaria a todos. Muitos saíam, procurando as cidades maiores, onde havia a
Faculdade de Direito, com os diplomas, e o governo, com os empregos. Os que ficavam,
proprietários e usineiros, repetiam a saga de seus pais: relativamente ricos,
alguns; absolutamente endividados, todos. Por sorte, deviam ao Banco do Brasil
ou ao também estatal Instituto do Açúcar e do Álcool. Ou seja, mesmo quando
insolventes, encontravam meios de ir levando a vida.
Tendo
perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a fazê-lo no Recife, em
1947. Deste ano até, pelo menos, a primeira metade dos 1960, passei as férias em
Monte Verde. Em regra, viajávamos de trem; às vezes, íamos de avião até Maceió,
onde vivia a avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, passados alguns
dias, embarcávamos no trem para a fazenda. No percurso, eu sonhava com cajus. Continuo
sonhando, embora tenha experimentado coisas ainda mais gostosas, desde então.
Essa era Branquinha.
E
o trem?
Da
Gretueste (ou Great Western, para os mais
cultos), depois Rede Ferroviária do Nordeste. Até 1954, locomotivas
marias-fumaças, movidas a lenha e a vapor; nesse ano, apareceram as máquinas
diesel e o percurso do Recife a Branquinha, quando, excepcionalmente, não havia
atrasos, encurtou-se de dez para oito horas. Um espanto. Nas viagens, minha mãe
tinha frequentes enxaquecas, porém se resignava, pois não havia outro meio de
chegar à fazenda. Íamos na única parte do trem equipada com poltronas numeradas,
mas o vagão especial atrasava tanto quanto os outros.
Algumas
estações tinham nomes marcantes: Pontezinha, Paquevira, Maraial, Fernão Velho, Bebedouro.
Nelas, respeitadas as especializações, podíamos comprar laranjas, bananas, doces,
alfenins, cavacos ou rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava
diariamente jornais e sacos de sururu. E havia o telégrafo, maravilha
tecnológica da época; pelo código Morse, o vilarejo falava para o mundo.
O
melhor da viagem era quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná
Champagne e comer alguma coisa. Também me lembro do banheiro – melhor dito, da
latrina – que se comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta
embaixo do assento e não devia ser usada quando os trens estivessem parados. (Eu
ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os
aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Frequentemente,
me pergunto por que, no Nordeste, o trem da Gretueste não se associou a uma revolução
industrial, como acontecera na Europa do século 19. Nem o trem, nem as grandes fábricas
de tecidos, das quais havia tantas, no Recife e em estações como Fernão Velho, um
bairro de Maceió.
Tenho,
certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de diferentes épocas e
lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar especial
em minhas memórias. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, das
enxaquecas de minha mãe, dos cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou
da impressão que me causava ir deixando o cocô ao longo do caminho, às vezes,
espalhado em quilômetros.
Um
verdadeiro recorde.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 4,
n. 20, agosto de 2010)
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