quinta-feira, 13 de outubro de 2011

“O Dr. Bucéfalo” (em homenagem a Kafka) ou “Joãozinho morreu fuzilado porque chamou o avô de caolho”


Mauro Bahia


As mulheres se entreolharam nervosamente, quando chegou o Dr. Bucéfalo. Pouco antes, Edimunda fugira de casa, grávida, fazendo sua mãe e irmãs tremerem só em imaginar a reação do pai a tão inconcebível acontecimento. Pois o homem era um terror: em nome da moral e da religião, submetera as filhas (além do Irineuzinho. Ah, o Irineuzinho...) a uma ditadura feroz, cujo resultado fora fazê-las todas irremediavelmente virgens e ressequidas. Todas, menos a caçula que, pouco antes de também se tornar um bucho, arranjara um namorado.
***
Asdrúbal podia ser um sujeito meio bronco, mas sabia do quê estava a fim. Como não tinha escolha, amassava a namorada ali mesmo, na sala, diante dos olhares excitados das outras mulheres. Vinha sempre quando Bucéfalo estava fora porque, se o velho soubesse dessas visitas, ia ser o diabo.
Muito católica, Dona Marmota advertia a filha que aquilo (“você sabe, aquilo”) era pecado mortal, mas a menina havia descoberto o irresistível e o calor do casal só aumentava, a cada encontro. Onde o namoro iria parar, nem Deus sabia, embora pudesse ter desconfiado. E assim foi: mão aqui, mão ali; beijinho pra cá, beijinho pra lá; terminou que, uma determinada noite, aproveitando o cochilo da vigilante, Asdrúbal acertou na mosca e o mundo perdeu uma virgem. Dois meses depois, a jovem desmaiou no meio da sala.
No começo, Marmota, que tinha tido vertigens em cada gravidez, não quis nem admitir a possibilidade. Dia após dia, ela rezou seus padres-nossos, salve-rainhas e ave-marias, mas não se aquietou. Pressionando Edimunda, obteve a confissão, sem imaginar que, em seguida, a filha fugiria de casa. E assim estavam as coisas, quando o pai apareceu, naquela que viria a ser uma noite de grandes comoções.
***
Mal entra em casa, Bucéfalo percebe que há algo estranho no ambiente. Pergunta o quê, mas a mulher desconversa. (“Nada não, nada não”). Ele insiste, ela se esquiva. E então, o tirano irrompe em fúria. Quase estrangulando Marmota, ouve que Edimunda tinha um namorado (“ai”); que nunca antes acontecera nada entre eles (“ai, ai”); que a filha fugira de casa (“ai, ai, ai”); que ela parecia estar grávida...
Fora de si, Bucéfalo corre para o quarto dos fundos, gritando sem parar.
– Minha filha é uma puta, uma puta. Mas eu mato os dois. Cadê a espingarda?
Em pouco tempo, ele encontra o que procura: uma pistola antiga, de carregar pela boca. Apesar disso, sai do quarto ainda mais possesso.
– Marmota, sua vaca, onde está a pólvora? Ache logo, ou eu mato você também.
Aparece a pólvora. Descontrolado, o velho passa a carregar a arma, toc, toc, toc, de uma forma absurdamente perigosa, sem tomar qualquer cuidado.
– Santo Deus, o que o senhor vai fazer? Perguntam Brochélia e Náusea Maria, as outras filhas.
Todas imploram calma ao pai e marido. Menos o Irineuzinho que, alheio à cena, fica trancado no quarto com seu melhor amigo. (Ah, o Irineuzinho...) Sem escutar coisa alguma, o velho não se detém. Continua a socar a pólvora espingarda a dentro, com o cano da arma apontado para seu rosto. É perigoso, muito perigoso. Alguma coisa pode acontecer e, de repente, acontece.
– PUUMMMM!!!
O tiro faz em Bucéfalo um buraco onde antes estava o seu olho esquerdo, que fica grudado no teto observando tudo, com olímpica imparcialidade.
Joãozinho nasceu alguns meses depois; Edimunda voltou pra casa; de Asdrúbal, nunca mais se soube.
***
Sete anos se passaram, desde a noite do acidente. Até que um dia, enquanto observava o avô a caçar lagartixas no quintal, Joãozinho fez um comentário inocente para uma das tias.
– Ele atira sem fechar o olho; já tem um que é cego.
A frase não poderia ter sido mais inoportuna. Bucéfalo lembrou da filha devassa; da mulher insignificante; do Irineuzinho duvidosamente masculino; do olho perdido, que continuava pendurado na sala. E da vergonha, sobretudo, da vergonha.
Apontou a arma e fuzilou o menino.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 19, abril de 2010)

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