Mauro Bahia
As mulheres se
entreolharam nervosamente, quando chegou o Dr. Bucéfalo. Pouco antes, Edimunda
fugira de casa, grávida, fazendo sua mãe e irmãs tremerem só em imaginar a
reação do pai a tão inconcebível acontecimento. Pois o homem era um terror: em
nome da moral e da religião, submetera as filhas (além do Irineuzinho. Ah, o
Irineuzinho...) a uma ditadura feroz, cujo resultado fora fazê-las todas irremediavelmente
virgens e ressequidas. Todas, menos a caçula que, pouco antes de também se
tornar um bucho, arranjara um namorado.
***
Asdrúbal podia ser um
sujeito meio bronco, mas sabia do quê estava a fim. Como não tinha escolha, amassava
a namorada ali mesmo, na sala, diante dos olhares excitados das outras mulheres.
Vinha sempre quando Bucéfalo estava fora porque, se o velho soubesse dessas
visitas, ia ser o diabo.
Muito católica, Dona Marmota
advertia a filha que aquilo (“você sabe, aquilo”)
era pecado mortal, mas a menina havia descoberto o irresistível e o calor do
casal só aumentava, a cada encontro. Onde o namoro iria parar, nem Deus sabia, embora
pudesse ter desconfiado. E assim foi: mão aqui, mão ali; beijinho pra cá,
beijinho pra lá; terminou que, uma determinada noite, aproveitando o cochilo da
vigilante, Asdrúbal acertou na mosca e o mundo perdeu uma virgem. Dois meses
depois, a jovem desmaiou no meio da sala.
No começo, Marmota,
que tinha tido vertigens em cada gravidez, não quis nem admitir a
possibilidade. Dia após dia, ela rezou seus padres-nossos, salve-rainhas e
ave-marias, mas não se aquietou. Pressionando Edimunda, obteve a confissão, sem
imaginar que, em seguida, a filha fugiria de casa. E assim estavam as coisas, quando
o pai apareceu, naquela que viria a ser uma noite de grandes comoções.
***
Mal entra em casa, Bucéfalo
percebe que há algo estranho no ambiente. Pergunta o quê, mas a mulher
desconversa. (“Nada não, nada não”). Ele insiste, ela se esquiva. E então, o
tirano irrompe em fúria.
Quase estrangulando Marmota, ouve que Edimunda tinha um
namorado (“ai”); que nunca antes acontecera nada entre eles (“ai, ai”); que a
filha fugira de casa (“ai, ai, ai”); que ela parecia estar grávida...
Fora de si, Bucéfalo
corre para o quarto dos fundos, gritando sem parar.
– Minha filha é uma
puta, uma puta. Mas eu mato os dois. Cadê a espingarda?
Em pouco tempo, ele
encontra o que procura: uma pistola antiga, de carregar pela boca. Apesar
disso, sai do quarto ainda mais possesso.
– Marmota, sua vaca,
onde está a pólvora? Ache logo, ou eu mato você também.
Aparece a pólvora.
Descontrolado, o velho passa a carregar a arma, toc, toc, toc, de uma forma
absurdamente perigosa, sem tomar qualquer cuidado.
– Santo Deus, o que o
senhor vai fazer? Perguntam Brochélia e Náusea Maria, as outras filhas.
Todas imploram calma
ao pai e marido. Menos o Irineuzinho que, alheio à cena, fica trancado no
quarto com seu melhor amigo. (Ah, o Irineuzinho...) Sem escutar coisa alguma, o
velho não se detém. Continua a socar a pólvora espingarda a dentro, com o cano
da arma apontado para seu rosto. É perigoso, muito perigoso. Alguma coisa pode
acontecer e, de repente, acontece.
– PUUMMMM!!!
O tiro faz em Bucéfalo
um buraco onde antes estava o seu olho esquerdo, que fica grudado no teto observando
tudo, com olímpica imparcialidade.
Joãozinho nasceu
alguns meses depois; Edimunda voltou pra casa; de Asdrúbal, nunca mais se
soube.
***
Sete anos se passaram,
desde a noite do acidente. Até que um dia, enquanto observava o avô a caçar
lagartixas no quintal, Joãozinho fez um comentário inocente para uma das tias.
– Ele atira sem fechar
o olho; já tem um que é cego.
A frase não poderia
ter sido mais inoportuna. Bucéfalo lembrou da filha devassa; da mulher
insignificante; do Irineuzinho duvidosamente masculino; do olho perdido, que
continuava pendurado na sala. E da vergonha, sobretudo, da vergonha.
Apontou a arma e
fuzilou o menino.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 4,
n. 19, abril de 2010)
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