Mauro Bahia
Em poucos anos de vida, o Diário do Dia, que se autodenominava “DDD, o matutino pernicioso”, fez
história. O jornal encerrou a carreira depois do incêndio que destruiu sua sede,
embora ele não fosse sediado em lugar algum. Mas, outro dia, revirando papeis, encontrei
uma página amarelada. Era da seção cultural do Diário – precisamente, a mais famosa – e continha notas como essas.
CINEMA
Tarzan
em Terra Minha. O lendário herói viaja da África para o Brasil pelo
caminho das árvores e aqui se envolve em intriga amorosa com administrador de
zoológico. A macaca Chita interrompe a análise para socorrer o amigo, mas é
detida pelo Ibama, ao tentar entrar no país. Em exibição, no Rex.
Centelha
Vermelha na Curva do Rio. Um dos poucos
índios a fazer carreira em Hollywood, Centelha Vermelha tenta convencer um inocente
missionário que a parte mais importante da canoa é o mastro. Termina
conseguindo, mas não sem expor o religioso a grandes perigos. Relançamento, em
breve, no Palace.
LIVROS
Autobiografia
de Mim Mesmo, de Jaime K. Gay. Ator
medíocre, o único papel importante da vida de Jaime lhe foi dado aos sete anos:
o papel higiênico. Aos 18, abandonou a carreira artística, dedicando-se,
exclusivamente, a cometer suicídio. Neste setor, seu desempenho foi bom: em 15
tentativas, acertou quatro. Pouco antes de sua morte, que ainda está para
acontecer, o ex-ator publica a Autobiografia,
mistura de irrelevância literária com erros de português. Ótima leitura de
férias para desempregados.
Obra
Completa, de Rescaldo Sangrento. Depois
de 180 anos com prisão de ventre, o remédio fez efeito e Sangrento produziu sua
Obra. Mas o livro é de leitura
difícil, pois ninguém consegue decifrar a caligrafia do autor. Nestas
condições, as melhores páginas são as que foram deixadas em branco.
Antes de jogá-lo do 150 andar,
porém, lembre-se de que há coisas aproveitáveis no livro. O papel, por exemplo,
é reciclável e pode ser aceito como doação, se você arrancar as páginas em que
aparece o nome do autor. Livro destinado a se tornar um clássico, mais ou
menos, do nível de um jogo entre a Bolívia e El Salvador, a Obra Completa tem uma vantagem: como nunca
foi escrita, também não precisa ser lida.
SHOWS
Jacinto
Filho. O violonista turco-paraibano, especialista
em música polonesa precolombiana, interpreta os últimos sucessos de Chitãozinho
e Xororó. Geralmente, o Procon aparece e obriga a produção a devolver os
ingressos. (Leve seu celular; você vai ter de chamar os bombeiros, pois o
desastre é inevitável.) No Canequinho.
Olho
Dum. Conjunto baiano inicia temporada
no Pacaembu, mas a Vigilância Sanitária recomenda que, na primeira semana, o
público se dirija ao Morumbi, distante 20 km . Para os shows seguintes, esta precaução
não será necessária, pois, até lá, terão chegado as duas toneladas de
desodorante que a Justiça ordenou fossem entregues à banda. No Morumbi (ou
melhor, Pacaembu).
ARTES
PLÁSTICAS
CXXXIII
Bienal. Depois de passar pela
bilheteria, o visitante será conduzido ao salão de exposições, onde não existe
absolutamente nada, além das paredes, chão e teto. A crítica tem sido
entusiástica, considerando que, nesta Bienal, finalmente, foram atingidos os
ideais da escola abstracionista. No Anhembi. (Leia o comentário de Pedro
Pierre, abaixo.)
Imperdível. Atenção leitor
interessado em arte: a Bienal está imperdível. Im-per-dí-vel. Território dominado pelos abstracionistas,
imagine que você não consegue ver, tocar, cheirar, ou manusear nenhuma das
peças em exposição. É o triunfo final das idéias de Picasso, Dali e Diacolá.
Até
ontem, não se podia dizer que o abstracionismo reinasse sozinho nas artes
plásticas, pictóricas e mictóricas, pois também existiam o concretismo, a
argamassa e o tijolo aparente. Agora, o triunfo da escola é definitivo. A tal ponto
que, de concreto, na Bienal, só mesmo o preço dos ingressos.
O
leitor que me perdoe o entusiasmo, mas me faltam palavras para expressar a
satisfação que sinto em não ver a
arte contemporânea. (Pedro Pierre)
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