sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fragmentos de um jornal


Mauro Bahia





Em poucos anos de vida, o Diário do Dia, que se autodenominava DDD, o matutino pernicioso”, fez história. O jornal encerrou a carreira depois do incêndio que destruiu sua sede, embora ele não fosse sediado em lugar algum. Mas, outro dia, revirando papeis, encontrei uma página amarelada. Era da seção cultural do Diário – precisamente, a mais famosae continha notas como essas.
CINEMA
Tarzan em Terra Minha. O lendário herói viaja da África para o Brasil pelo caminho das árvores e aqui se envolve em intriga amorosa com administrador de zoológico. A macaca Chita interrompe a análise para socorrer o amigo, mas é detida pelo Ibama, ao tentar entrar no país. Em exibição, no Rex.
Centelha Vermelha na Curva do Rio. Um dos poucos índios a fazer carreira em Hollywood, Centelha Vermelha tenta convencer um inocente missionário que a parte mais importante da canoa é o mastro. Termina conseguindo, mas não sem expor o religioso a grandes perigos. Relançamento, em breve, no Palace.
LIVROS
Autobiografia de Mim Mesmo, de Jaime K. Gay. Ator medíocre, o único papel importante da vida de Jaime lhe foi dado aos sete anos: o papel higiênico. Aos 18, abandonou a carreira artística, dedicando-se, exclusivamente, a cometer suicídio. Neste setor, seu desempenho foi bom: em 15 tentativas, acertou quatro. Pouco antes de sua morte, que ainda está para acontecer, o ex-ator publica a Autobiografia, mistura de irrelevância literária com erros de português. Ótima leitura de férias para desempregados.
Obra Completa, de Rescaldo Sangrento. Depois de 180 anos com prisão de ventre, o remédio fez efeito e Sangrento produziu sua Obra. Mas o livro é de leitura difícil, pois ninguém consegue decifrar a caligrafia do autor. Nestas condições, as melhores páginas são as que foram deixadas em branco.
Antes de jogá-lo do 150 andar, porém, lembre-se de que há coisas aproveitáveis no livro. O papel, por exemplo, é reciclável e pode ser aceito como doação, se você arrancar as páginas em que aparece o nome do autor. Livro destinado a se tornar um clássico, mais ou menos, do nível de um jogo entre a Bolívia e El Salvador, a Obra Completa tem uma vantagem: como nunca foi escrita, também não precisa ser lida.
SHOWS
Jacinto Filho. O violonista turco-paraibano, especialista em música polonesa precolombiana, interpreta os últimos sucessos de Chitãozinho e Xororó. Geralmente, o Procon aparece e obriga a produção a devolver os ingressos. (Leve seu celular; você vai ter de chamar os bombeiros, pois o desastre é inevitável.) No Canequinho.
Olho Dum. Conjunto baiano inicia temporada no Pacaembu, mas a Vigilância Sanitária recomenda que, na primeira semana, o público se dirija ao Morumbi, distante 20 km. Para os shows seguintes, esta precaução não será necessária, pois, até lá, terão chegado as duas toneladas de desodorante que a Justiça ordenou fossem entregues à banda. No Morumbi (ou melhor, Pacaembu).
ARTES PLÁSTICAS
CXXXIII Bienal. Depois de passar pela bilheteria, o visitante será conduzido ao salão de exposições, onde não existe absolutamente nada, além das paredes, chão e teto. A crítica tem sido entusiástica, considerando que, nesta Bienal, finalmente, foram atingidos os ideais da escola abstracionista. No Anhembi. (Leia o comentário de Pedro Pierre, abaixo.)
Imperdível. Atenção leitor interessado em arte: a Bienal está imperdível. Im-per-dí-vel. Território dominado pelos abstracionistas, imagine que você não consegue ver, tocar, cheirar, ou manusear nenhuma das peças em exposição. É o triunfo final das idéias de Picasso, Dali e Diacolá.
Até ontem, não se podia dizer que o abstracionismo reinasse sozinho nas artes plásticas, pictóricas e mictóricas, pois também existiam o concretismo, a argamassa e o tijolo aparente. Agora, o triunfo da escola é definitivo. A tal ponto que, de concreto, na Bienal, só mesmo o preço dos ingressos.
O leitor que me perdoe o entusiasmo, mas me faltam palavras para expressar a satisfação que sinto em não ver a arte contemporânea. (Pedro Pierre)

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