sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O pastor Joseph e a tomada de corrente


Mauro Bahia


Certo dia, fui abordado por dois daqueles rapazes que vivem batendo de porta em porta a fazer propaganda religiosa. Quase sempre, consigo escapar do sermão sem ser indelicado. Não dessa vez: quando me dei conta, eles já estavam narrando a história que, com algumas licenças poéticas, reproduzo abaixo.
Joseph, pessoa muito piedosa, vivia atormentado porque, nas redondezas da cidade onde morava – em algum lugar dos Estados Unidos, dois séculos atrás – havia quatro igrejas diferentes, cada uma garantindo ser a única verdadeira. Batistas, santistas, queremistas, revisionistas, sei lá.
– “Eu sou o carrinho, a vaidade e o custo de vida”, dizia o pastor da igreja no 1.
– “Eu é que sou o maioral”, pregava o da no 2.
Coisas do mesmo tipo também eram ditas pelos outros pastores. Instalara-se, enfim, uma bagunça ideológica na qual ninguém conseguia dar jeito.
– “Como posso saber qual é a igreja verdadeira?”, perguntava-se Joseph, angustiado. Uma escolha errada poderia levá-lo ao inferno.
Passaram-se meses até que, finalmente, o homem decidiu não decidir. Por sorte, perto de sua casa havia uma montanha. Ali ele iria jejuar por quanto tempo fosse necessário; a greve de fome só terminaria quando viesse um sinal do Além mostrando qual das quatro igrejas era mesmo a verdadeira.
Deve ser dito que o jejum durou somente até quando, na cidade aos seus pés, foi inaugurado o primeiro MacDonald’s. Na manhã seguinte, atormentado por visões apocalípticas de um Big Mac com Coca Cola, o homem desistiu. Mas eis que, justo então, dois anjos lhe apareceram, para dizer que nenhuma das igrejas lá embaixo estava com aquela bola toda. E que ele, promovido a pastor de cabras e ovelhas, deveria fundar uma nova religião. O que Joseph, naturalmente, fez, pois não é todo dia que aparece uma oportunidade dessas.
Ficava assim demonstrado, de acordo com os dois jovens, que a igreja deles era, sem nenhuma dúvida, a única verdadeira. Ao ouvir isso, argumentei que, antes de Joseph subir à montanha, havia quatro igrejas, cada uma delas se dizendo concessionária autorizada exclusiva dos poderes celestiais. Depois que ele desceu, passaram a existir cinco. Nessas condições, eu achava que o pastor tinha piorado a situação. Mas os dois rapazes não concordaram.
***
Lembrei-me dessa história há poucos dias quando, tendo comprado um aparelho elétrico, dei-me conta de que não o podia conectar a nenhuma das tomadas existentes em casa, nem mesmo com a ajuda dos muitos adaptadores trazidos do Exterior. Eu já sabia que o Brasil está introduzindo um novo sistema de plugs e tomadas. Resolvi me informar melhor com um especialista. Resultou o seguinte diálogo, eu perguntando, ele respondendo.
– O novo sistema é mais seguro?
– Parece que sim.
– Mais moderno?
– Com certeza.
– É igual ao usado nos Estados Unidos?
– Não.
– Na Inglaterra?
– Não.
– Na França?
– Menos ainda.
– Na Rússia, na China, no Uzbequistão?
– Não, não e não.
– Na PQP?
– Nunca.
Fiquei sabendo que o sistema brasileiro foi inventado no Brasil e só existe aqui. Seus criadores devem ser adeptos do pastor Joseph, que tentou resolver o problema do excesso de igrejas verdadeiras fundando mais uma. Com a diferença de que os gênios locais nem precisaram passar por um pesadelo gastronômico antes de parir sua religião – digo, suas tomadas.
– Imagine se tivessem passado.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 4, n. 20, outubro de 2010)

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