Mauro Bahia
Certo dia, fui
abordado por dois daqueles rapazes que vivem batendo de porta em porta a fazer propaganda
religiosa. Quase sempre, consigo escapar do sermão sem ser indelicado. Não dessa
vez: quando me dei conta, eles já estavam narrando a história que, com algumas
licenças poéticas, reproduzo abaixo.
Joseph, pessoa
muito piedosa, vivia atormentado porque, nas redondezas da cidade onde morava –
em algum lugar dos Estados Unidos, dois séculos atrás – havia quatro igrejas
diferentes, cada uma garantindo ser a única verdadeira. Batistas, santistas,
queremistas, revisionistas, sei lá.
– “Eu sou o
carrinho, a vaidade e o custo de vida”, dizia o pastor da igreja no
1.
– “Eu é que
sou o maioral”, pregava o da no 2.
Coisas do
mesmo tipo também eram ditas pelos outros pastores. Instalara-se, enfim, uma
bagunça ideológica na qual ninguém conseguia dar jeito.
– “Como posso
saber qual é a igreja verdadeira?”, perguntava-se Joseph, angustiado. Uma
escolha errada poderia levá-lo ao inferno.
Passaram-se
meses até que, finalmente, o homem decidiu não decidir. Por sorte, perto de sua
casa havia uma montanha. Ali ele iria jejuar por quanto tempo fosse necessário;
a greve de fome só terminaria quando viesse um sinal do Além mostrando qual das
quatro igrejas era mesmo a verdadeira.
Deve ser dito
que o jejum durou somente até quando, na cidade aos seus pés, foi inaugurado o
primeiro MacDonald’s. Na manhã seguinte, atormentado por visões apocalípticas
de um Big Mac com Coca Cola, o homem desistiu. Mas eis que, justo então, dois
anjos lhe apareceram, para dizer que nenhuma das igrejas lá embaixo estava com
aquela bola toda. E que ele, promovido a pastor de cabras e ovelhas, deveria
fundar uma nova religião. O que Joseph, naturalmente, fez, pois não é todo dia
que aparece uma oportunidade dessas.
Ficava assim
demonstrado, de acordo com os dois jovens, que a igreja deles era, sem nenhuma
dúvida, a única verdadeira. Ao ouvir isso, argumentei que, antes de Joseph
subir à montanha, havia quatro igrejas, cada uma delas se dizendo
concessionária autorizada exclusiva dos poderes celestiais. Depois que ele
desceu, passaram a existir cinco. Nessas condições, eu achava que o pastor
tinha piorado a situação. Mas os dois rapazes não concordaram.
***
Lembrei-me dessa
história há poucos dias quando, tendo comprado um aparelho elétrico, dei-me
conta de que não o podia conectar a nenhuma das tomadas existentes em casa, nem
mesmo com a ajuda dos muitos adaptadores trazidos do Exterior. Eu já sabia que
o Brasil está introduzindo um novo sistema de plugs e tomadas. Resolvi me
informar melhor com um especialista. Resultou o seguinte diálogo, eu
perguntando, ele respondendo.
– O novo
sistema é mais seguro?
– Parece que
sim.
– Mais
moderno?
– Com certeza.
– É igual ao
usado nos Estados Unidos?
– Não.
– Na
Inglaterra?
– Não.
– Na França?
– Menos ainda.
– Na Rússia,
na China, no Uzbequistão?
– Não, não e
não.
– Na PQP?
– Nunca.
Fiquei sabendo
que o sistema brasileiro foi inventado no Brasil e só existe aqui. Seus criadores
devem ser adeptos do pastor Joseph, que tentou resolver o problema do excesso
de igrejas verdadeiras fundando mais uma. Com a diferença de que os gênios
locais nem precisaram passar por um pesadelo gastronômico antes de parir sua
religião – digo, suas tomadas.
– Imagine se
tivessem passado.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 4,
n. 20, outubro de 2010)
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