segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O que aconteceu no Vietnam?

Mauro Bahia



Meu comandante me incumbiu de lhes informar sobre o que aconteceu no Vietnam, levando-nos a buscar refúgio aqui na Tailândia. 

Tudo começou quando percebemos que os comunistas haviam concentrado tropas juntos às cidades do planalto central e que iriam partir para a ofensiva. Incontinenti, o Estado Maior se reuniu, para deliberar o que fazer. Foi então aprovado o plano em quatro etapas do coronel Svuien Vuien, que previa, em sua primeira fase, o recuo e abandono de todas as nossas posições no interior; na segunda, o reagrupamento das tropas ao longo da faixa costeira; na terceira, o retreinamento das tropas e, finalmente, na quarta e última, o avanço global em todas as frentes. Devido a essa característica da sua última fase, a estratégia foi denominada Plano Grande Vassoura.

Devo confessar que seu êxito foi total apenas na primeira fase. A heróica retirada dos nossos soldados se processou numa velocidade tão grande que nem os mais otimistas poderiam prever. Houve até quem dissesse que a tropa só tinha pressa para fugir, mas isso é uma calúnia, a ser punida tão logo libertemos o nosso país, o que acontecerá muito em breve. 

Reagrupadas e retreinadas as forças, nas cidades costeiras, deu-se início à grande ofensiva de reconquista do solo pátrio. Foi quando começaram a se multiplicar os desastres. Os primeiros batalhões nossos a enfrentarem os comunistas foram esmagados. Como haviam deixado nossas posições com pouca defesa, aconteceu que o inimigo, após deter nosso avanço, marchou até às cidades costeiras, conquistando-as, quase todas. Ficara evidente o caráter suicida da Grande Vassoura. O coronel Svuien Vuien foi fuzilado e o general Van Tuieu assumiu o comando. A ofensiva foi suspensa e um outro plano, concebido.

A nova estratégia tinha três etapas: o recuo geral e abandono de nossas posições em todas as frentes, exceto na capital; a reconcentração de forças nessa cidade, e um avanço coordenado, em todas as direções, a partir de Saigon. Nosso então comandante costumava apelar para a analogia com uma porção de tinta derramada sobre um papel esponjoso, espalhando-se até dominar por inteiro o papel. Daí o nome, Plano Mancha, dado a essa brilhante concepção de guerra.

Novamente se cumpriu com perfeição a fase da retirada. Na verdade, a dedicação de nossos soldados em cumprir as ordens foi tanta que eles deixaram pelo caminho metralhadoras, canhões, até tanques. Os detratores disseram que a bravura dos soldados limitava-se às fases de retirada, mas essa é outra calúnia que será punida após reconquistarmos a pátria, o que ocorrerá em breve. 

Com todas as nossas forças reunidas em Saigon, acreditava o general Tuieu, o inimigo seria impotente para conter uma violenta contra-ofensiva de nossa parte. Quando esta foi ordenada, entretanto, repetiu-se o desastre anterior. Logo ficou claro que não poderíamos continuar defendendo a capital por muito tempo. Um outro plano se fazia imprescindível, especialmente depois do general Van Tuieu ter sido enforcado.

O novo comandante, marechal Nguien Guien, logo concebeu a estratégia, aproveitando-se de uma circunstância favorável. Os Estados Unidos, nossos aliados, haviam colocado a funcionar uma gigantesca ponte aérea para evacuação da população civil de Saigon. Esta ponte estava para ser desativada, porque, apesar da aparentemente inevitável queda da capital, não havia quem quisesse sair de lá. Os americanos, naturalmente, já tinham ido embora. 

O plano do marechal Nguien Guien era simples e infalível, e tinha duas etapas. Na primeira, utilizando a ponte aérea, retiraríamos o exército da capital, concentrando-o aqui na Tailândia; na segunda, executaríamos um desembarque em massa de paraquedistas no nosso país. Seria um desembarque simultâneo em vários pontos, sendo que, de cada um deles expandir-se-iam nossos exércitos, até a vitória final. O marechal denominou a estratégia de Plano Pingos.

Outra vez, a primeira etapa foi cumprida à risca. Ainda me lembro do entusiasmo com que a população viu seus defensores partirem. Na verdade, o entusiasmo era tão grande que alguns caluniadores disseram que o povo estava feliz com nossa saída, mas isso é uma grande inverdade, que será punida, com todo o rigor, quando retomarmos o governo. 

Antes de iniciar a segunda etapa do plano, contudo, o marechal Nguien Guien lembrou que nossas forças armadas não dispunham de paraquedistas. Foi preciso contratar mercenários para a missão. Só depois disso, a fase dois do Plano Pingos teve início. Infelizmente, ao contrário da nossa ofensiva apanhar os comunistas de surpresa, nós é que fomos surpreendidos. Todos os nossos paraquedistas foram mortos no ar. Por ordem do Estado Maior, o marechal Nguien Guien foi jogado de helicóptero no meio do oceano. Sem paraquedas.

Pois bem, meus caríssimos senhores. Solicitamos esta audiência para lhes informar que uma grave ameaça paira sobre a Tailândia. Os comunistas nos enviaram a conta das despesas com a munição usada para abater nossos paraquedistas. Virão ao nosso encalço, se não saldarmos imediatamente este débito, coisa impossível. 

Os nossos generais acham que o governo tailandês deveria pagar a conta, a qual lhe será rembolsada, tão logo reconquistemos nosso país. Para tanto o hipermarechal Tutu Tutun tem o infalível Plano Moléculas, que consiste em apenas uma etapa: a retirada de nossas tropas do território tailandês. (Para onde, ele não sabe.) Este plano não falhará. 

Talvez haja outra etapa, mas o comandante ainda não está bem certo sobre ela. Ele apenas está absolutamente seguro de que nossa vitória final é somente uma questão de dias.

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