segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Filosofia em pingos


Mauro Bahia



 I            
Namorei, durante anos, uma janela, por trás da qual deveria haver uma mulher, a quem jamais vi. A vantagem das janelas é que elas são eternas. Ou, pelo menos, eu assim pensava, até a passagem do furacão Katrina.
II          
Severino Bastino podia ser burro, mas tinha senso de lógica. Comparando, aos setenta anos de vida, o número de vezes em que se masturbara com o de relações sexuais que tivera, concluiu que a grande paixão de sua vida tinha sido ele mesmo.
III         
O sonho de Aldo Cabeçote era ver um italiano cortando macarrão. Aldo conseguiu muitas coisas na vida, das que o dinheiro compra e das que só a sorte é capaz de trazer. Foi amante de Sofia Loren; dono de um castelo no vale do Loire, sócio de Drácula numa churrascaria de carnes mal passadas. Conheceu pessoalmente o Imperador Hiroíto, com quem jogava paciência toda quarta-feira à noite. Ainda comeu um pedaço do bispo Sardinha, guardado durante cinco séculos. Uma vez, hóspede oficial do Vaticano, perdido entre os cômodos do palácio, abriu a porta errada e viu o papa sentado na latrina, em plena obra. Mas Aldo Cabeçote morreu frustrado. Nunca viu um italiano cortando macarrão.
 IV         
José Nepomuceno estava muito bem de vida, sim, senhor. Alegre, contente, barriga cheia, boa saúde, tinindo. Ou, pelo menos, era isso que ele pensava. Não seus amigos. Convenceram-no de que devia consultar um médico. Nepomuceno hesitou. Estava bem, sentia-se bem, ora bolas. Seus amigos insistiram: “não se descuide, Nepo”. O homem terminou capitulando. Foi ao clínico geral, que lhe mandou fazer cento e oitenta exames. E a mais três doutores, que apenas lhe perguntaram se seu seguro estava em dia. Sob protestos, foi internado. Morreu em duas semanas. Infecção hospitalar.
 V          
O médico: “Sua bursite transformou-se numa tendinite e está virando uma tasfudidite...”.
O paciente: “Tasfudidite???"
O médico: “Eu não, tu”.
VI         
Na Pérsia antiga, havia terremotos, pestes bubônicas, furacões, bichos de pé, programas de ratinhos, e muitas outras catástrofes naturais. Mas o que os persianos e persianas realmente temiam era que Paulo Coelho e Leonardo Boff um dia escrevessem um livro juntos.
VII       
E tem a estória da mulher que vendia água de coco, à beira mar. Era a praia, o luar, um violão em seresta e aquela mulher, que era uma delícia. Não, não, me engano. A mulher era uma merda. O coco é que era uma delícia.
VIII      
Há ditadores que adoram uma ditadura.
 IX         
-- Zezinho é uma pessoa muito inteligente. Um sábio.
-- O que é que ele sabe tanto?
-- Saber, mesmo, ele não sabe não. Mas desconfia de uma porção de coisas.
 X          
-- Devo o que sou às surras que levei de meu pai, quando criança, dizia o velho moralista, a uma platéia de babacas.
-- E o que ele é, exatamente?, pergunta um dos ouvintes ao seu vizinho.
-- Aleijado.
                                                                                                                                                          XI         
Aviso em porta de igreja:
O hino O Senhor é meu pastor, nada me faltará não foi cantado trasantontem por falta de voz.
PS. 1: Este aviso deixou de ser colocado anteontem por falta de tinta.
PS. 2: Eu não escrevi isso ontem por falta de saco.
P.S. 3: Tô escrevendo hoje porque o vigário mandou, mas ninguém vai ler, por falta de luz.
Assinado: Zezinho Faxineiro (por falta do sacristão...)
 XII       
Ensina-nos a História da Australásia Ocidental que o rei D. Peido I foi pai de D. Peido II, que foi pai de D. Peido III, que foi pai de D. Peido IV, que foi cortado em pedaços e vendido no açougue, porque o povo australasiano percebeu que era burrice continuar sustentando aquela família de vagabundos que passavam o dia peidando.
XIII      
A tentativa dos bombeiros de apagar o incêndio foi debalde.
XIV      
Pesquisa do IBOPE, em dez capitais, identificou as três marcas que mais fizeram propaganda no ano passado: Jesus, a cerveja Antártica e o cigarro Free.
Comentário distraído de Rescaldo Sangrento: “Tudo droga.”
     XV       
Um incidente político-ecológico aconteceu numa hora de almoço qualquer, num recanto remoto qualquer deste país, quando o português Joaquim Felisberto, funcionário da Funai, instado a levantar-se da mesa para receber o cacique local (o comitê de recepção gritava, do terraço: “vem Joaquim, vem Joaquim”) respondeu:
-- Espera, estou comendo, ainda.
Entenderam que ele estava comendo “a índia” e aí foi uma merda total.
XVI      
Minha vida só não é mais sedentária porque eu tomo muita água.
XVII    
A maior salva de palmas já registrada no mundo ocorreu em 1978, durante a apresentação do Balé Bolshoi, em Pequim. Cento e dez mil pessoas aplaudiram o conjunto, durante sete minutos seguidos. Considerando que, em média, uma pessoa bate duas palmas e meia por segundo, e que há 420 segundos em sete minutos, deduz-se que as 110 mil pessoas bateram 115,5 milhões de palmas. Admitindo que, em cada sete palmas batidas, pelo menos uma acerte mortalmente um inseto, pode-se estimar que, naquela noite, morreram 16,5 milhões de mosquitos. Como, em média, 2.500 mosquitos pesam um quilo, houve 6.600 quilos de insetos mortos. Isso daria para alimentar 776 sapos, durante doze meses, como se deduz facilmente, sabendo-se que cada sapo consome 8,5 quilos de mosquitos por ano. Sendo que, com a pele de três sapos se produz uma bolsa que se vende por 4,5 dólares, conclui-se que a salva de palmas ao Balé Bolshoi causou um prejuízo de 1.164 dólares à República Popular da China. Portanto, nada mais justo que aqueles bailarinos frescos tenham sido todos fuzilados. 

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