Mauro Bahia
Houve um tempo em que cachorro quente ainda não havia
sido promovido a “rótidogue”. Era “comeu, morreu”. Não literalmente, claro, mas
sempre havia o medo. Eu mesmo sou um sobrevivente. Com certa freqüência, anos
atrás, nas saídas do futebol ou das festas, era traído pelo olfato e, contra
todos os conselhos, encostava-me a um daqueles tabuleiros de aparência suspeita
e higiene duvidosa para terminar minha noite com um suculento “comeu, morreu”.
Flertava com o perigo e, às vezes, colhia dois ou três dias de instabilidade
intestinal.
Sabíamos que os vendedores engrossavam o molho
acrescentando papel higiênico ao preparado. A mistura ia ao fogo por horas e,
ao fim do processo, não se podia mais distinguir a carne do que tinha sido
outra coisa. Nessa química, o ingrediente complementar preferido era o papel
higiênico Tu-Let, cujas vantagens incluíam ser um tipo bem barato, facilmente
desagregável, e que já vinha colorido de vermelho, ou seja, de “encarnado”.
Desta forma, com seu nome sugestivo, o Tu-Let fez sucesso não apenas nas
latrinas, mas também na culinária regional.
Episódios marcantes fazem parte da história ainda a ser
escrita dos velhos “comeu, morreu”. Um exemplo: Alfredo Soares, economista,
professor de Estatística e praticante da praia de Serrambi, testemunhou o
seguinte episódio. Certa madrugada, na porta de um clube em final de festa, ele
ouviu uma voz forte que dizia:
– Olha o cachorro, olha o cachorro; gordo e quente,
gordo e quente...
Quem assim gritava, enquanto mexia o panelão com enorme
colher de pau, era um vendedor suado, desgrenhado e seminu. Foi quando se
aproximou do tabuleiro um pretendente comprador. Estava com fome e devia ter
bebido muito, pois sua indisposição era visível. Tendo pouco dinheiro, arriscou
negociar um desconto:
– Faz um meno, cara.
– Menos nada, chefia. É dez mil cruzeiro.
Dez mil, o rapaz não tinha – nem pensar – mas ele ficou
ali, como se estivesse grudado, respirando aquele ar alimentício. E ficou. E ficou.
Até que, sob o efeito de tanta bebida indigerida, vomitou abundantemente, nada
mais, nada menos que dentro da panela com o recheio do cachorro quente. Na
presença, não apenas, de Alfredo Soares, mas também de uma multidão que devia
incluir até o Repórter Esso, testemunha ocular da História. (Faz tempo, hein?)
Ato contínuo, o infeliz bêbado e faminto levou uma
tremenda bronca e teve de ir embora, sem comer nada, mas se sentindo aliviado.
Para surpresa de Alfredo, contudo, o vendedor suado, desgrenhado, seminu, e,
agora, aborrecido, não se perturbou. Pôs mais carvão no fogo; acelerou o ritmo
da colher de pau, para misturar as novas substâncias às antigas;, e continuou
gritando:
– Olha o cachorro, olha o cachorro; gordo e quente,
gordo e quente...
Depois desse incidente, rapidamente contornado, as
vendas continuaram tão boas quanto antes, até um pouco melhores. (Acaso, um
novo tempero acabara de ser descoberto?) O homem faturou alto. E não se soube
que o movimento do Pronto Socorro tivesse sido maior, naquela noite. De “comeu,
morreus”, entretanto, o professor passou a guardar prudente distância, desde
então.
Vivíamos perigosamente, é verdade. Mas, no final, quase
não havia vítimas. Na linguagem estatística de alguns alunos relapsos de
Alfredo Soares, a “esperança” de comer um suculento cachorro quente após as
festas e o futebol era sempre alta; a de morrer, não significantemente
diferente de zero, com margem de erro de dois pontos para cima e dois para
baixo.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 2,
n. 10, outubro de 2008)
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