sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma Organização Não-Governamental


Mauro Bahia

Sem a Insetos Uótchi, as baratas já estariam extintas, em Cricri. Ainda mais agora que a crise chegou e o povo não tem o que comer.

No início, os habitantes de Cricri, pequena cidade do interior, pensavam que ONG era uma forma de AIDS. Hoje, alguns estão ainda mais convencidos disso, mas a maioria mudou de opinião. Já existem até as ongues locais, como a Insetos Uótchi, defensora das moscas, baratas, mosquitos, muriçocas e outros bichos, de variadas espécies.

Por sinal, essa organização enfrenta, no momento, graves dificuldades financeiras. Isso sempre acontece quando chega o dia de abrir o Caixa 2 e distribuir o dinheiro com os diretores.
Para resolver o problema, a diretoria está reunida na sua sede, doada pela Prefeitura. O uisquinho com salgados, gentileza da Câmara Municipal, já foi servido. É preciso decidir logo, pois todos estão ansiosos, à espera do almoço bancado pela empresa municipal de energia. (Felizmente, ainda não privatizada.)
Pirajá Pirou, Artrógeno Cururipe e Peçonha de Moraes são os que mais opinam.
Pirajá: O problema é que nosso dinheiro é curto e vem todo da Prefeitura. Precisamos de mais ajuda do governo. Qualquer que seja ele.
Artrógeno: Sei não, sei não. Depois vão ficar dizendo que nossa ongue vive só de verba pública.
Peçonha: E tem alguma que não viva?
Pirajá: Nenhuma. Vamos fazer uma moção ao prefeito, dizendo que precisamos de mais recursos.
Artrógeno: Mas, o prefeito sou eu.
Pirajá: Ótimo. Assim nosso pedido pode ser aprovado aqui mesmo.
Artrógeno: Não é assim. Preciso que os vereadores concordem.
Pede a palavra outro diretor, até então calado:
Aldo Cabeçote: No que depender do presidente da Câmara Municipal, a aprovação é certa. E da base de apoio ao prefeito, também.
(O presidente da Câmara Municipal era ele próprio.)
Do seu lugar, Rescaldo Sangrento, líder da Oposição, balançou a cabeça para dizer que o PNT, Partido dos Não-Trabalhadores, apoiava a ideia. Somente Peçonha de Moraes ainda quis prolongar a conversa.
Peçonha: Mas, como vamos defender o pedido?
Pirajá: Dizendo que, sem a Insetos Uótchi, as baratas já estariam extintas, na nossa cidade. Ainda mais agora que a crise chegou e o povo não tem o que comer.
Pirajá Pirou era considerado um intelectual; Aldo Cabeçote interveio, para reforçar o argumento do colega:
Cabeçote: Diga mais... Diga que os cupins são filhos de Deus. E as lesmas... A barata também é parte da Criação, mas ninguém pensa nisso. Ah, se não fosse a Insetos Uótchi, onde estaríamos?
Pirajá: Em um mundo onde o aumento da biodiversidade causado pelas variações climáticas já teria feito explodir o buraco de hormônio, levando ao aquecimento global de toda a Farinha Láctea.
Cabeçote: Essa frase tem de aparecer na petição.
Coube a Peçonha de Moraes redigir a carta pedindo mais dinheiro à Prefeitura. Cinco milhões de reais. Artrógeno Cururipe espantou-se com o valor.
Artrógeno: Assim não dá, Peçonha. Você quer mais dinheiro para financiar os serviços públicos da Insetos Uótchi. Mas, quem precisa de uma ongue para fazer serviços públicos e, ainda por cima, com dinheiro da Prefeitura? Não seria mais fácil a Prefeitura fazer tudo diretamente?
As ponderações do prefeito caíram em ouvidos moucos, pois os comensais não iriam perder seu tempo. Considerando a gravidade do assunto, os vereadores deliberaram em regime de urgência urgentíssima, durante o almoço, e aprovaram o pedido por unanimidade. Numa demonstração de elevado espírito público, Artrógeno Cururipe assinou os cheques ali mesmo, entre o prato de lagosta e a sobremesa de quindim. Antes, até, do cafezinho.
E, assim, em Cricri, a vida seguiu seu curso. Exatamente como sempre tinha feito, nos anos e décadas passados, quando ainda não havia ongues; exatamente como continuará a fazer, nos anos e décadas futuros, quando já não haverá ONGs.
(Embora ainda continue a haver AIDS.)



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 16, agosto de 2009)

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