Mauro Bahia
Na
Pischichina, aí por volta de 2.000
A . C., a religião ensinava que não apenas o corpo do rei
era sagrado; qualquer coisa que proviesse dele também era. Isso gerou o costume
de se guardar toda a produção de resíduos reais, desde o nascimento do príncipe
herdeiro, até à sua morte. Fezes, urina, suor, cuspe, nada se podia perder. Os
sacerdotes diziam que o rei tinha de levar tudo aquilo consigo, para a vida
eterna. Se faltasse um só pedaço de unha, seu espírito e o de seus súditos
ficariam eternamente vagando pelos mundos obscuros do Além-Mar.
Não se
sabe que consequências essa doutrina teve lá nas alturas. Cá embaixo, os
problemas foram enormes, entre outras coisas porque, quando o rei vivia muito,
os Sagrados Armazéns de Bosta, como eram oficialmente designados, podiam se
estender por quarteirões e mais quarteirões – ocupando muito espaço e gente. O
manuseio das fezes ficava com os escravos, mas a administração era monopólio
dos sacerdotes, cujo número e riqueza crescia em proporção às quantidades
acumuladas de excrementos.
É
verdade que os religiosos trabalhavam duro, inventando métodos para melhor
guardar aquelas emanações de apreensão mais complexa. Preservar o suor real,
por exemplo, sempre foi muito difícil. E os gases expelidos, pior ainda. Para
os que saíam por baixo, a solução foi afixar bexigas de peru às partes
traseiras do soberano. Mas os arrotos permaneceram escapando ao controle por
muitos anos, a despeito das advertências divinas de que aquilo podia custar a
danação eterna.
Contra
essa espécie de argumento, o rei nada podia fazer, a não ser pagar melhor aos
magos, de modo a que eles interpretassem a palavra divina com flexibilidade.
Para fazê-lo, contudo, era preciso cada vez mais dinheiro, o que obrigava a
Pischichina a expandir continuamente seus domínios. À medida que o império
aumentava em extensão, novas conquistas exigiam campanhas em lugares cada vez
mais distantes. Como a tradição era que o imperador chefiava pessoalmente o seu
exército, longas ausências do rei significavam ameaças maiores à integridade de
seu acervo excremental, tanto o que já estava acumulado quanto o que ele iria
produzir, durante a guerra.
Frequentemente,
carregar os dejetos do rei, dos campos de batalha até a capital, constituía
tarefa mais árdua do que derrotar o inimigo. Trabalho para os escravos,
oportunidades para os religiosos, e sacrifício para a plebe, que tinha de pagar
tudo aquilo. Os sacerdotes, satisfeitos, realizavam cultos e mais cultos em
louvor ao sagrado cocô real. Mas, ao mesmo tempo em que as montanhas de merda
se acumulavam sem limites visíveis, o povo, apesar de submisso, alimentava seu
ressentimento.
Até
que, num ano de derrotas militares, veio uma chuva sem fim. Um dia, dois dias,
três meses, só chuva. Os armazéns tinham goteiras, de modo que a chuva acabou
por derreter fezes, catotas e suores reais. Foram cem dias que abalaram o mundo.
No meio da tormenta, por sugestão dos sacerdotes, Esperidião, o Último, ainda
tentou um golpe, mandando recolher excrementos do povo, para substituir a parte
do seu que virara água. Debalde. Seitas alternativas denunciaram a manobra,
insuflando grave revolta popular. Era de manhã – e ainda chovia -- quando a
população invadiu os Sagrados Armazéns, saqueando e quebrando tudo.
Com a
crise político-religiosa, ruiu também o império: a Pischichina foi conquistada
pelos cornovacos, seus antigos vassalos, cujos sacerdotes garantiam que a
salvação eterna seria daquele que conseguisse comer maiores quantidades dos
resíduos reais. Não bastou para quem quis.
(Gravatá,
janeiro de 2000)
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