segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O que aconteceu na Pischichina


Mauro Bahia


Na Pischichina, aí por volta de 2.000 A. C., a religião ensinava que não apenas o corpo do rei era sagrado; qualquer coisa que proviesse dele também era. Isso gerou o costume de se guardar toda a produção de resíduos reais, desde o nascimento do príncipe herdeiro, até à sua morte. Fezes, urina, suor, cuspe, nada se podia perder. Os sacerdotes diziam que o rei tinha de levar tudo aquilo consigo, para a vida eterna. Se faltasse um só pedaço de unha, seu espírito e o de seus súditos ficariam eternamente vagando pelos mundos obscuros do Além-Mar.

Não se sabe que consequências essa doutrina teve lá nas alturas. Cá embaixo, os problemas foram enormes, entre outras coisas porque, quando o rei vivia muito, os Sagrados Armazéns de Bosta, como eram oficialmente designados, podiam se estender por quarteirões e mais quarteirões – ocupando muito espaço e gente. O manuseio das fezes ficava com os escravos, mas a administração era monopólio dos sacerdotes, cujo número e riqueza crescia em proporção às quantidades acumuladas de excrementos.

É verdade que os religiosos trabalhavam duro, inventando métodos para melhor guardar aquelas emanações de apreensão mais complexa. Preservar o suor real, por exemplo, sempre foi muito difícil. E os gases expelidos, pior ainda. Para os que saíam por baixo, a solução foi afixar bexigas de peru às partes traseiras do soberano. Mas os arrotos permaneceram escapando ao controle por muitos anos, a despeito das advertências divinas de que aquilo podia custar a danação eterna.

Contra essa espécie de argumento, o rei nada podia fazer, a não ser pagar melhor aos magos, de modo a que eles interpretassem a palavra divina com flexibilidade. Para fazê-lo, contudo, era preciso cada vez mais dinheiro, o que obrigava a Pischichina a expandir continuamente seus domínios. À medida que o império aumentava em extensão, novas conquistas exigiam campanhas em lugares cada vez mais distantes. Como a tradição era que o imperador chefiava pessoalmente o seu exército, longas ausências do rei significavam ameaças maiores à integridade de seu acervo excremental, tanto o que já estava acumulado quanto o que ele iria produzir, durante a guerra.

Frequentemente, carregar os dejetos do rei, dos campos de batalha até a capital, constituía tarefa mais árdua do que derrotar o inimigo. Trabalho para os escravos, oportunidades para os religiosos, e sacrifício para a plebe, que tinha de pagar tudo aquilo. Os sacerdotes, satisfeitos, realizavam cultos e mais cultos em louvor ao sagrado cocô real. Mas, ao mesmo tempo em que as montanhas de merda se acumulavam sem limites visíveis, o povo, apesar de submisso, alimentava seu ressentimento.

Até que, num ano de derrotas militares, veio uma chuva sem fim. Um dia, dois dias, três meses, só chuva. Os armazéns tinham goteiras, de modo que a chuva acabou por derreter fezes, catotas e suores reais. Foram cem dias que abalaram o mundo. No meio da tormenta, por sugestão dos sacerdotes, Esperidião, o Último, ainda tentou um golpe, mandando recolher excrementos do povo, para substituir a parte do seu que virara água. Debalde. Seitas alternativas denunciaram a manobra, insuflando grave revolta popular. Era de manhã – e ainda chovia -- quando a população invadiu os Sagrados Armazéns, saqueando e quebrando tudo.

Com a crise político-religiosa, ruiu também o império: a Pischichina foi conquistada pelos cornovacos, seus antigos vassalos, cujos sacerdotes garantiam que a salvação eterna seria daquele que conseguisse comer maiores quantidades dos resíduos reais. Não bastou para quem quis.

(Gravatá, janeiro de 2000)

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