Mauro Bahia
Naquela tarde de
domingo, os membros do Sindicato estavam tensos, quando seu chefe começou a
falar:
– Tenho recebido as
maiores queixas. O governo está perdendo popularidade e acha que a culpa é
nossa. Estamos faltando aos nossos compromissos. Mas vamos reagir. Enquanto há
vida, há esperança, inclusive, esperança de mortes.
Esperança de mortes?
Sim, claro. Por que, afinal, se havia criado aquele sindicato, se não para
tornar mais previsível a produção de delitos? Havia crimes, antes. Mas faltava
organização. Por causa disso, muito dinheiro era desperdiçado. O governo precisava
saber quantos assassinatos iriam acontecer no próximo ano – e nos seguintes. Só
assim seria possível fazer um planejamento perfeito, com as verbas da polícia
bem definidas, os bancos de sangue supridos na medida exata, os cemitérios
empregando quantos coveiros fossem necessários. Nem mais, nem menos.
Um dia, se atingiu esse
ideal, mas somente depois de muitos fracassos. Desiludido de prever crimes que
não aconteciam, o governo tratou de buscar soluções inovadoras. Foi um ministro
quem propôs:
– Tem muita gente
dizendo que mata e esfola, mas quem faz mesmo isso são poucos. O que precisamos,
para saber quantas mortes ocorrerão, ou quanto dinheiro será roubado, é reunir
os criminosos e criar um sindicato. O governo entra com os regulamentos, pode
até criar uma linha de crédito para os assaltantes. Em compensação, o sindicato
garante que os crimes prometidos serão, realmente, executados.
Tão simples, depois de
dito. Com a idéia aprovada, o sindicato criado e a cobertura legal garantida, tudo
passou a funcionar bem. Tendo os desvios de verbas já incluídos no orçamento, o
governo conseguiu determinar, finalmente, a quanto montava o superávit primário.
Mais importante: sabendo o que iria acontecer, o Presidente dizia a verdade,
coisa, até então, inédita. Sua popularidade atingiu níveis jamais sonhados.
Na esteira desse
sucesso, o Sindicato dos Ilustres, como preferiu ser chamado, tornou-se o braço
direito das autoridades. Nenhuma decisão importante era tomada sem que os
criminosos fossem consultados. Em reconhecimento, o Congresso aprovou uma lei
abolindo as penas para a maioria dos crimes; alguns passaram a ser considerados
de utilidade pública. Meliantes famosos assinavam colunas nos maiores jornais; o
chefe dos ilustres chegou a ser ministro da Justiça; batedores de carteira
eram, rotineiramente, nomeados secretários de Segurança Pública; num
determinado momento, todos os diretores do Banco Central eram falsários; o
presidente do Tribunal de Contas, um conhecido estelionatário.
Enquanto funcionou, o
esquema foi admirado em todo o mundo. De repente, entretanto, as coisas
começaram a dar errado. Empolgados com o prestígio, os criminosos passaram a
relaxar em suas obrigações. A cada mês, diminuíam os assaltos e aumentavam os
erros de previsão. O sindicato já não conseguia realizar todos os crimes que
prometia e que o governo tomava como certos, em seus programas sociais. A popularidade
do Presidente despencava. Alguma coisa tinha de ser feita.
***
Naquela tarde de
domingo, o chefe do sindicato consumia-se em nervosismo; afinal, muito mais do
que sua reputação de escroque estava em jogo. Era preciso acordar aqueles criminosos, apelar
para seu orgulho. Pôs na voz toda a ênfase que pôde.
– Um sindicato que não
cumpre as suas promessas não merece o prestígio social que conquistou. Temos
que roubar mais, matar mais, cometer os crimes que prometemos. Não é uma
questão de escolha, mas de dever.
Assim concluiu, em
êxtase, o mais importante dos ladrões. Foi saudado com uma ovação. Naquele
instante, promessas foram refeitas; lealdades, reafirmadas. Não houve um só
criminoso, do mais humilde ao mais rico, fosse ele falsário, vigarista, assaltante,
pistoleiro ou arrombador, que não tivesse se sentido tocado em seus brios e se
determinado a reagir, para cumprir os compromissos esquecidos.
Na igreja ao lado do sindicato,
o padre também havia sido incisivo:
– “Sodoma e Gomorra,
nunca mais!”, esbravejara ele, calando fundo no coração de seu rebanho.
A missa e a assembléia
terminaram ao mesmo tempo e, no aglomerado de gente que se ia formando em
frente ao sindicato e à igreja, não se podia distinguir entre criminosos e
crentes. Em uns, como nos outros, a sensação interior de fortaleza e
determinação saltava à vista. Todos sorriam. Do alto de seus degraus, o padre
contemplou a multidão e também sorriu. Podia sentir quase fisicamente a
presença de Deus.
(Publicado na
revista Nordeste Econômico, Ano 3,
n. 15, junho de 2009)
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