sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sindicato do Crime


Mauro Bahia


Naquela tarde de domingo, os membros do Sindicato estavam tensos, quando seu chefe começou a falar:

– Tenho recebido as maiores queixas. O governo está perdendo popularidade e acha que a culpa é nossa. Estamos faltando aos nossos compromissos. Mas vamos reagir. Enquanto há vida, há esperança, inclusive, esperança de mortes.

Esperança de mortes? Sim, claro. Por que, afinal, se havia criado aquele sindicato, se não para tornar mais previsível a produção de delitos? Havia crimes, antes. Mas faltava organização. Por causa disso, muito dinheiro era desperdiçado. O governo precisava saber quantos assassinatos iriam acontecer no próximo ano – e nos seguintes. Só assim seria possível fazer um planejamento perfeito, com as verbas da polícia bem definidas, os bancos de sangue supridos na medida exata, os cemitérios empregando quantos coveiros fossem necessários. Nem mais, nem menos.

Um dia, se atingiu esse ideal, mas somente depois de muitos fracassos. Desiludido de prever crimes que não aconteciam, o governo tratou de buscar soluções inovadoras. Foi um ministro quem propôs:

– Tem muita gente dizendo que mata e esfola, mas quem faz mesmo isso são poucos. O que precisamos, para saber quantas mortes ocorrerão, ou quanto dinheiro será roubado, é reunir os criminosos e criar um sindicato. O governo entra com os regulamentos, pode até criar uma linha de crédito para os assaltantes. Em compensação, o sindicato garante que os crimes prometidos serão, realmente, executados.

Tão simples, depois de dito. Com a idéia aprovada, o sindicato criado e a cobertura legal garantida, tudo passou a funcionar bem. Tendo os desvios de verbas já incluídos no orçamento, o governo conseguiu determinar, finalmente, a quanto montava o superávit primário. Mais importante: sabendo o que iria acontecer, o Presidente dizia a verdade, coisa, até então, inédita. Sua popularidade atingiu níveis jamais sonhados.

Na esteira desse sucesso, o Sindicato dos Ilustres, como preferiu ser chamado, tornou-se o braço direito das autoridades. Nenhuma decisão importante era tomada sem que os criminosos fossem consultados. Em reconhecimento, o Congresso aprovou uma lei abolindo as penas para a maioria dos crimes; alguns passaram a ser considerados de utilidade pública. Meliantes famosos assinavam colunas nos maiores jornais; o chefe dos ilustres chegou a ser ministro da Justiça; batedores de carteira eram, rotineiramente, nomeados secretários de Segurança Pública; num determinado momento, todos os diretores do Banco Central eram falsários; o presidente do Tribunal de Contas, um conhecido estelionatário.

Enquanto funcionou, o esquema foi admirado em todo o mundo. De repente, entretanto, as coisas começaram a dar errado. Empolgados com o prestígio, os criminosos passaram a relaxar em suas obrigações. A cada mês, diminuíam os assaltos e aumentavam os erros de previsão. O sindicato já não conseguia realizar todos os crimes que prometia e que o governo tomava como certos, em seus programas sociais. A popularidade do Presidente despencava. Alguma coisa tinha de ser feita.

***

Naquela tarde de domingo, o chefe do sindicato consumia-se em nervosismo; afinal, muito mais do que sua reputação de escroque estava em jogo. Era preciso acordar aqueles criminosos, apelar para seu orgulho. Pôs na voz toda a ênfase que pôde.

– Um sindicato que não cumpre as suas promessas não merece o prestígio social que conquistou. Temos que roubar mais, matar mais, cometer os crimes que prometemos. Não é uma questão de escolha, mas de dever.

Assim concluiu, em êxtase, o mais importante dos ladrões. Foi saudado com uma ovação. Naquele instante, promessas foram refeitas; lealdades, reafirmadas. Não houve um só criminoso, do mais humilde ao mais rico, fosse ele falsário, vigarista, assaltante, pistoleiro ou arrombador, que não tivesse se sentido tocado em seus brios e se determinado a reagir, para cumprir os compromissos esquecidos.

Na igreja ao lado do sindicato, o padre também havia sido incisivo:

– “Sodoma e Gomorra, nunca mais!”, esbravejara ele, calando fundo no coração de seu rebanho.

A missa e a assembléia terminaram ao mesmo tempo e, no aglomerado de gente que se ia formando em frente ao sindicato e à igreja, não se podia distinguir entre criminosos e crentes. Em uns, como nos outros, a sensação interior de fortaleza e determinação saltava à vista. Todos sorriam. Do alto de seus degraus, o padre contemplou a multidão e também sorriu. Podia sentir quase fisicamente a presença de Deus.



(Publicado na revista Nordeste Econômico, Ano 3, n. 15, junho de 2009)

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