Mauro Bahia
Enquanto
escrevia o Discurso do Método,
Descartes era guarda livros do Sr. Cartesdes, abastado comerciante de secos e
molhados. Um bico, pois o que a
Descartes interessava mesmo era a filosofia. E nela ele punha sua alma – e o
máximo de seu esforço físico. Nem todas as vinte e quatro horas do dia lhe
bastariam para dedicar às suas reflexões.
Descartes
era um empregado competente mas, como passava as noites em claro, faltava muito
ao trabalho. Até que, uma certa manhã, o patrão perdeu a paciência e resolveu
ir buscá-lo em casa. Encontrou-o dormindo, em meio a papéis rabiscados. “Não sei
se existo, não sei se existo. Não tenho certeza”, repetia o filósofo noturno nos seus escritos.
Cartesdes
ficou perplexo: pelo visto, o problema do rapaz era mais grave. Resolveu dar um
tempo. Quem sabe, pensou, quando ele descobrir que existe, se lembre também que
tem um emprego. De modo que ficou o não dito pelo nem sequer pensado e o patrão
voltou para a loja.
Só que
as coisas não melhoraram. Provavelmente porque, com o tempo, suas dúvidas
existenciais se tornavam mais profundas (“será que esta mesa existe?”, “será
que essa caneta existe?”), Descartes foi fazendo intervalos cada vez maiores
entre uma e outra visitas ao trabalho. A essa altura, a contabilidade do
armazém já tinha virado uma zorra.
Era
inevitável: um dia, o patrão perdeu a paciência e decidiu não mais pagar o
salário do guarda-livros. (“Se ele não sabe se existe, não vai nem notar”,
pensou Cartesdes).
No
início, foi o que aconteceu. Mas, depois de dois meses, Descartes já não
conseguia dormir, nem de noite, nem de dia, com os credores batendo à sua
porta: Mesmo assim, ia levando: “não sei se existo, não sei se existo”. Nada
parecia abalar sua falta de certeza.
Até que
apareceu o senhorio, anunciando que ou recebia o aluguel, ou ia despejá-lo no
dia seguinte. A imagem de seus manuscritos sendo jogados na rua foi demais para
o filósofo. Nessa mesma noite, veio o estalo.
“Devo,
logo existo”.
Foram
os seus editores que, mais tarde, substituíram essa por aquela frase idiota,
aplicável a tão pouca gente, no mundo.
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