segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Descartes e Cartesdes


Mauro Bahia


Enquanto escrevia o Discurso do Método, Descartes era guarda livros do Sr. Cartesdes, abastado comerciante de secos e molhados. Um bico, pois o que a Descartes interessava mesmo era a filosofia. E nela ele punha sua alma – e o máximo de seu esforço físico. Nem todas as vinte e quatro horas do dia lhe bastariam para dedicar às suas reflexões.

Descartes era um empregado competente mas, como passava as noites em claro, faltava muito ao trabalho. Até que, uma certa manhã, o patrão perdeu a paciência e resolveu ir buscá-lo em casa. Encontrou-o dormindo, em meio a papéis rabiscados. “Não sei se existo, não sei se existo. Não tenho certeza”, repetia o filósofo noturno nos seus escritos.

Cartesdes ficou perplexo: pelo visto, o problema do rapaz era mais grave. Resolveu dar um tempo. Quem sabe, pensou, quando ele descobrir que existe, se lembre também que tem um emprego. De modo que ficou o não dito pelo nem sequer pensado e o patrão voltou para a loja.

Só que as coisas não melhoraram. Provavelmente porque, com o tempo, suas dúvidas existenciais se tornavam mais profundas (“será que esta mesa existe?”, “será que essa caneta existe?”), Descartes foi fazendo intervalos cada vez maiores entre uma e outra visitas ao trabalho. A essa altura, a contabilidade do armazém já tinha virado uma zorra.

Era inevitável: um dia, o patrão perdeu a paciência e decidiu não mais pagar o salário do guarda-livros. (“Se ele não sabe se existe, não vai nem notar”, pensou Cartesdes).

No início, foi o que aconteceu. Mas, depois de dois meses, Descartes já não conseguia dormir, nem de noite, nem de dia, com os credores batendo à sua porta: Mesmo assim, ia levando: “não sei se existo, não sei se existo”. Nada parecia abalar sua falta de certeza.

Até que apareceu o senhorio, anunciando que ou recebia o aluguel, ou ia despejá-lo no dia seguinte. A imagem de seus manuscritos sendo jogados na rua foi demais para o filósofo. Nessa mesma noite, veio o estalo.

“Devo, logo existo”.

Foram os seus editores que, mais tarde, substituíram essa por aquela frase idiota, aplicável a tão pouca gente, no mundo. 

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